Há 30 anos, o Pearl Jam lançava um álbum que veio a delinear toda a sua história. Esse disco foi “No Code”, o quarto álbum de uma das mais bem-sucedidas bandas de Seattle. Nunca um disco vestiu tanto a carapuça de que você precisa dar várias chances para compreendê-lo ou de que, quanto mais velho, melhor. Para este que vos escreve, No Code, lançado em 27 de agosto de 1996, foi a porta de muita estranheza sonora e me fez respeitar ainda mais o quinteto de Seattle.
No Code foi um disco difícil, pois a banda estava finalizando a turnê do Vitalogy e acompanhando Neil Young na turnê de Mirror Ball. O cansaço e o stress de convivências e novos pensamentos e rumos consumiam a banda.
O quinteto começou as pré-gravações e Jeff Ament, baixista, só soube três dias depois, o que o deixou furioso e quase o fez sair do Pearl Jam. Ele alegava que não estava envolvido com o disco, além de ficar possesso pelo controle criativo estar muito nas mãos de Eddie Vedder. Já Mike McCready, guitarrista, afirmou, em entrevistas na época, que gravar separado seria a melhor saída, já que a banda estava desgastada.

A banda começou a gravar o álbum em 1995, passou por três estúdios diferentes e só foi finalizar em meados de 1996, poucos meses antes do lançamento.
O efeito Jack Irons
Muitas músicas nasceram a partir de jams e outras de fragmentos de composições dos integrantes, que Vedder levava dias para finalizar. O que contribuiu para o disco se tornar leve foi o baterista Jack Irons, que estava com a banda havia um ano, entrando no lugar de Dave Abbruzzese. Irons era tido como um cara apaziguador e espiritual, ponto fundamental para um amadurecimento lírico e sonoro da banda.
Irons fez parte da primeira formação do Red Hot Chili Peppers e foi fundamental para a entrada de Eddie Vedder no Pearl Jam. Ele foi uma figura importante na cena californiana do rock dos anos 80, tendo tocado em bandas como What Is This?, que tinha Hillel Slovak, fundador do Red Hot, Alain Johannes, do Queens of the Stone Age, e Flea em sua formação. Vedder era da Califórnia e Irons, que já o conhecia, sabia que Vedder queria estar em uma banda.
O baterista tinha conhecimento de que membros de uma antiga banda de Seattle estavam procurando um vocalista. Essa banda era composta pelos antigos integrantes do Mother Love Bone, que havia perdido Andrew Wood, vítima de overdose. Dali surgiu o Temple of the Dog, algo como um primeiro teste para Vedder, já que a banda tinha Jeff Ament, Mike McCready e Stone Gossard nas cordas, além de Chris Cornell e Matt Cameron, do Soundgarden, e Vedder contribuindo em duas músicas. Uma delas foi Hunger Strike, a canção que mais fez sucesso e estourou na MTV. Desse ponto em diante, surge o Pearl Jam.
A amizade com Irons deu coragem e impulso para Vedder mudar os rumos do quinteto.
Ponto de transição
O disco teve a produção de Brendan O’brien, parceiro de antigos trabalhos e que acompanhou a banda ao longo da carreira. O produtor chegou a declarar que, No Code, foi o disco de transição para a banda.
De fato, No Code rompeu com a estética hard rock da banda, que começou gigante, com trabalhos avassaladores como Ten, Vs e Vitalogy. O quarto trabalho mostrou uma banda mais aberta ao experimentalismo, trazendo a influência de Neil Young, música country, barroca, folk e até mesmo uma influência indígena e oriental.
Muitas situações afetaram e contribuíram para a estética do disco e suas composições, como as brigas com a Ticketmaster, o rompimento com a mídia e a MTV e um olhar mais interior. Ao mesmo tempo em que o disco soava pesado, não pela sonoridade, mas pelas harmonias, você enxerga e ouve muita introspecção, raiva, cansaço dos padrões musicais e uma vontade de se distanciar de vários aspectos que os levaram a ser uma das bandas mais importantes daquela geração do rock.
No álbum, todas as letras são de Vedder, com exceção de Mankind, feita por Stone Gossard. Até então, foi a primeira vez que um integrante além de Eddie Vedder contribuiu com letras. Gossard também foi responsável pela parte vocal da faixa.
Já as temáticas falam sobre amadurecimento, espiritualidade e menos confronto com o passado, visto que os integrantes estavam chegando aos 30 anos, e confrontar o passado já não fazia muito mais parte da realidade da banda. Entender o presente era algo mais em voga para Vedder e companhia.
Capa e o conceito No Code
A capa era outro ponto importante para o Pearl Jam. A arte foi pré-concebida a partir de 144 fotografias no estilo Polaroid, dispostas em um arranjo de 12×12, tiradas pelos próprios integrantes da banda e pessoas próximas. No vinil, se você olhar de longe, as fotos, através de uma ilusão de ótica, formam o desenho de um triângulo com um olho no centro. No CD é meio complicado de perceber isso. Eu mesmo só percebi após essa pesquisa.

O design gráfico foi assinado por Jerome Turner, pseudônimo de Eddie Vedder. Dentro do encarte, cada letra vinha escrita em uma foto. Quer dizer, nem todas, pois o disco possui 13 faixas e somente nove fotos acompanhavam o encarte. Para ter todas, era preciso comprar outras edições e torcer para pegar as que faltavam.
No Code era um termo médico utilizado nos hospitais americanos, algo como “No Code” ou “Do Not Resuscitate”, que é uma ordem médica que instrui a equipe a não reanimar um paciente caso seu coração pare. Eddie Vedder revelou que isso simbolizava o status do Pearl Jam naquele momento:
“Eu achava que aquilo era um símbolo de onde estávamos com o grupo: se estamos morrendo, nos deixe morrer. Não tente nos salvar. Nós não queremos viver como vegetais”, declarou Vedder em entrevista na época. Além disso, o álbum não trazia o nome da banda nem o título estampados na frente, eliminando qualquer “código” comercial de identificação rápida nas lojas.
Faixa a Faixa
No Code começa com Sometimes, uma faixa curta e minimalista, com semelhanças com Fugazi, e emenda na sequência com a mais punk do disco, Hail Hail, escolhida como single.
Na sequência, a tribal Who You Are, com um piano de fundo e uma ótima bateria de Jack Irons. In My Tree vem na mesma pegada que a anterior, um misto de som xamânico, quase lembrando The Doors e crescendo no decorrer da música.
Em Smile, o Pearl Jam mostra todo seu lado Neil Young de composição. É uma referência explícita adquirida na companhia em turnê com o lendário músico. Tem direito até a um som de gaita feito por Eddie Vedder.
Off He Goes é a música que mais me fez chorar do Pearl Jam. Ela bate na alma. É um folk rock, com muito violão e muita melancolia. Eddie Vedder disse que escreveu a música falando sobre si e como ele é um péssimo amigo.
Habit é pesada e uma das mais grunge do disco. Recentemente surgiu um vídeo em que Vedder aparece tocando essa música ao vivo, junto com Mike Watt, do Minutemen, no baixo, e Dave Grohl, na bateria, em 1995, antes de sair o No Code. Sensacional.
Red Mosquito é uma das melhores do álbum. Une peso com partes acústicas interessantes, guitarras altas e Vedder cantando sobre os efeitos de uma intoxicação alimentar que o afetou antes de um show em São Francisco, Califórnia. Depois, emenda com Lukin, uma porrada no ouvido, rápida e direta, com uma referência ao ex-baixista do Mudhoney, Matt Lukin.
Agora, a melhor de todas. Present Tense.
“You can spend your time alone. Redigesting past regrets, oh Or you can come to terms and realize You’re the only one who can’t forgive yourself. Makes much more sense. To live, in the present tense (Você pode passar seu tempo só. Digerindo arrependimentos passados. Ou você pode chegar a um acordo e perceber que você é o único que não pode se perdoar. Faz muito mais sentido, Viver, no tempo presente)” letra e tradução do refrão de Present Tense, do Pearl Jam.
A letra parte da ideia central de lidar com os arrependimentos do passado e aprender a viver no presente.
A faixa é, em grande parte, somente guitarra e vocal, para explodir harmonicamente com a banda dando tudo de si e uma ótima linha de baixo de Jeff Ament, que mente descaradamente ao falar que não ligava para o disco. Considero No Code o disco com as melhores linhas de baixo já feitas por ele.
Mankind é feita e cantada por Stone Gossard, que não deixa a desejar. Na sequência, o spoken word I’m Open, terminando com a canção de ninar Around the Bend.

No Code foi considerado um fracasso de vendas para os padrões do Pearl Jam. Ele estreou em primeiro lugar na Billboard, vendendo 365 mil cópias na primeira semana, mas saiu logo do topo.
Em sua sexta semana, o álbum vendeu 790 mil cópias. No Code recebeu certificação de platina pela RIAA, mas foi o primeiro álbum da banda a não alcançar o status de multiplatina. Até hoje, estima-se que tenha vendido 1,7 milhão de cópias nos Estados Unidos, 100 mil no Brasil e cerca de 3,5 milhões de cópias globalmente, segundo o site Chartmasters.
Três singles foram lançados de No Code. O principal, Who You Are, alcançou o 31º lugar na Billboard Hot 100 e chegou ao primeiro lugar nas paradas de Modern Rock e ao quinto lugar nas paradas de Mainstream Rock. Nenhum dos outros singles do álbum, Hail Hail e Off He Goes, entrou na Hot 100, mas ambos chegaram às paradas de Mainstream Rock e Modern Rock, assim como a faixa do álbum Red Mosquito.
Já vi resenhas falarem que esse é um dos discos menos criativos da banda. Eu enxergo o oposto. Era o fim do grunge para a banda? Talvez. Mas uma coisa é certa: depois de No Code, o Pearl Jam nunca mais foi o mesmo. Ainda bem.
Ficha Técnica
Pearl Jam
Eddie Vedder – vocals, guitar, harmonica on “Smile”, Polaroids; credited as “Jerome Turner” for layout, concept of No Code
Jeff Ament – bass guitar, guitar on “Smile”, Polaroids, black-and-white photography
Stone Gossard – guitar, vocals, lead vocals on “Mankind”[24]
Mike McCready – guitar, piano on “Sometimes”, Polaroids
Jack Irons – drums
Production
Barry Ament, Chris McGann – Polaroids, layout
Matt Bayles, Caram Costanzo, Jeff Lane – assistant engineering
Dr. Paul J. Bubak, A. Fields – Polaroids
Nick DiDia – mixing, recording
Bob Ludwig – mastering
Lance Mercer – Polaroids, black-and-white photography
Brendan O’Brien – production, mixing, piano on “Smile”, “Off He Goes” and “Around the Bend”
Pearl Jam – production