Há 30 anos, mais precisamente em 9 de setembro de 1996, o R.E.M. mostrou ao mundo New Adventures in Hi Fi, seu décimo trabalho e um disco com cara de ressaca do sucesso e de um certo cansaço com o establishment da música naquele momento, mas com a qualidade pontual e certeira do quarteto.
Após conquistar o mundo nos anos 90, com dois discos altamente bem-sucedidos, como Out of Time (1991) e Automatic for the People (1992), o R.E.M. começou a demonstrar um certo bode com a indústria fonográfica e voltou-se ao rock e às raízes do alternativo com Monster, de 1994.
A partir daquele momento, com 15 anos de estrada, a morte de Kurt Cobain, amigo de Michael Stipe, e um aneurisma sofrido por Bill Berry, baterista da banda, em plena apresentação, o quarteto de Athens, Geórgia, gravou um álbum que sintetizava todo aquele momento, um misto de alegria por ter chegado lá e de decepção com a forma como chegaram lá.

Não foi só o R.E.M. que estava nesse estágio naquele momento. Muitas bandas que vieram dos anos 80 e estouraram nos anos 90 foram da euforia ao peso e às cobranças do sucesso. Aconteceu com o Soundgarden, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Sonic Youth, entre várias outras. O rock alternativo americano estava sendo deixado de lado, e outros estilos, como o New Metal, a música eletrônica, o Rap e o britpop, passaram a dominar o apreço dos jovens.
Em meio a tudo isso, estava o R.E.M., uma banda referência para tantas outras que surgiam naquela década. Uma delas, o Radiohead.
Cansaço e despedidas
New Adventures in Hi Fi surge no meio da turnê do Monster. Talvez por isso, carregue a sonoridade do disco anterior, ao mesmo tempo que há lampejos dos ares jangle e pop dos discos dos anos 80 e início dos 90, com pitadas de experimentalismo em algumas faixas.
O álbum pode ser considerado um trabalho de despedidas, pois foi o último disco gravado com a formação original, Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry, com o produtor Scott Litt, que acompanhou a banda em diversos trabalhos do quarteto, e com o seu empresário desde o início, Jefferson Holt.
Sua gravação ocorreu em estúdios móveis, passagens de som, estúdios em cidades por onde a banda tocava e até dentro das dependências do camarim, na faixa “Zither”, durante shows da banda na Filadélfia, Pensilvânia.
Vários estilos em um único disco
Com boa parte das músicas feitas e coletadas na estrada, o R.E.M. foi para Seattle finalizar o disco no Bad Animals Studio, local onde boa parte da cena grunge gravou. Lá, ainda gravaram quatro músicas: “How the West Was Won and Where It Got Us”, “Be Mine“, “New Test Leper” e “E-Bow the Letter“, esta com a participação de Patti Smith, uma das melhores do álbum. Fizeram parte também do disco os músicos de apoio que acompanharam a banda por boa parte da carreira, Scott McCaughey e Nathan December.
As letras refletiam o estado de espírito da banda na época, com temas sobre a vida na estrada, a alienação da fama, a mortalidade e a fragilidade e as agruras do sucesso. Para a capa, a banda utilizou uma foto da estrada Route 95, em Nevada, tirada por Stipe durante uma viagem de carro de Los Angeles para a Geórgia.
Apesar do certo cansaço do grupo, o álbum apontava novos caminhos sonoros que a banda viria a explorar na sequência, talvez por obrigação ou por estar desfalcada do baterista, que ajudava muito nas composições, mas também pelas tecnologias que estavam sendo bastante exploradas na indústria musical naquele momento. Vale lembrar que a música eletrônica estava em tremenda ebulição, e bandas de rock passaram a explorá-la, como o Radiohead, Smashing Pumpkins, U2 e tantas outras. Não seria diferente com o R.E.M., ainda que, em Hi Fi, isso ainda não aparecesse.
Tudo que o R.E.M. gostava estava impresso nas composições. Havia o jazz em “How the West Was Won and Where It Got Us“, uma música com ecos cinematográficos, as rockeiras “The Wake-up Bomb”, “Departure” e “So Fast So Numb”, o grunge e rock alternativo em “Undertow“, “Binky The Doormat” e “Low Desert“, esta com toques do country.
Há bandas em que, quando ouvimos um som, identificamos rapidamente suas características pela sonoridade inicial da guitarra e dos demais instrumentos, sem mesmo ter iniciado a parte vocal, e isso ocorre em “Bittersweet Me“.
Agora, os destaques e o ponto alto aparecem em “New Test Leper“, no dueto com Patti Smith, em “E-Bow the Letter“, com destaque para o E-Bow do título, um equipamento que faz as cordas da guitarra vibrarem por indução, produzindo um som que lembra um violino, e nas experimentais “Leave“, com seu efeito de guitarras e sintetizadores, “Be Mine“, a melhor do disco, em minha opinião, e “Electrolite“, que considero filha de “Losing My Religion” e mãe de “Imitation of Life”, que seria lançada cinco anos depois, no álbum Reveal.
Recepção e impacto
O álbum foi muito elogiado pela crítica, principalmente pela gama de influências de estilos e pelas composições das letras. O baixista Mike Mills chegou a declarar à revista Mojo que o colapso sofrido por Berry os aproximou ainda mais e toda aquela atmosfera de estrada teria que entrar de alguma forma em um novo trabalho. Ao invés de fazer simplesmente um disco ao vivo, optaram por mais um trabalho autoral.
Hi Fi atingiu o topo de vendas em alguns países, passou de 1 milhão de discos nos Estados Unidos e meio milhão no Reino Unido, com números expressivos na Alemanha e na Itália, segundo o site Chartmasters, mas foi considerado o início do declínio de vendas do R.E.M. No Brasil, venderam mais de 70 mil cópias e atingiram cerca de 4 milhões de cópias ao redor do mundo.
O lançamento de New Adventures in Hi Fi mostrou que a banda, mesmo passando por momentos turbulentos e complicados, não perdeu a vontade de se desafiar como artistas e ainda mostrou um norte a ser seguido para os próximos trabalhos.
Ficha técnica
Recorded at Bad Animals Studio in Seattle, Washington
Bill Berry – drums, percussion, “ennio whistle”
Peter Buck – guitar, mandolin, bouzouki, bass guitar
Mike Mills – piano, backing vocals, synthesizer
Michael Stipe – lead vocals, synthesizer
Nathan December – guitar and others
Scott McCaughey – ARP Odyssey synthesizer and others
Patti Smith – vocals
Andy Carlson – violin
Technical personnel
William Field – assistant engineering, Athens
Sam Hofstedt – assistant engineering, Seattle
Victor Janacua – assistant engineering, Los Angeles
Adam Kasper – recording engineering, Seattle
John Keane – recording and mixing
Scott Litt – co-producing and mixing engineering
Bob Ludwig/Gateway Mastering – mastering
Pat McCarthy – recording engineering, Los Angeles
Mark “Microwave” Mytrowitz – technical assistance
Joe O’Herlihy – tour recording engineering
Jo Ravitch – tour recording engineering
Eric Stolz – digital editing
Jeff Wooding – tour recording engineering