Play Me é o terceiro disco de uma artista que, ao se distanciar do rock, abraça cada vez mais seu lado punk nas letras sobre Trump, IA, big techs, machismo e fascismo.
Kim Gordon lançou em março Play Me, seu terceiro álbum totalmente solo, cada vez mais longe do rock dos tempos em que ela era a garota da banda e cada vez mais próximo da urgência do rap, ou do trap, onde passar a mensagem clara e direta não é ansiedade, mas sim um misto de urgência e coragem, algo que nunca lhe faltou.
O que chama atenção logo de cara é o tempo total do disco. São 12 músicas em 29 minutos, o que, conhecendo o gosto peculiar e experimental da carreira de Gordon, poderia soar inimaginável: entregar o que ela pensa e sente em músicas curtas. Mas, assim como no ótimo trabalho anterior, a artista conseguiu. Poderia ser um reflexo dos tempos, tão corridos e ansiosos, em que os ouvintes não conseguem ficar mais de 15 segundos presos em uma música ou qualquer tipo de arte, ou pode ser a verve punk de Kim voltando à tona, ou seja, simplesmente a vontade de ser direta e menos prolixa.

Em Play Me, a artista continua a parceria com Justin Raisen na produção. Raisen produziu os três discos da artista e a aproximou ainda mais dos sons contemporâneos, das batidas e loops do rap e do trap, algo feito, por exemplo, em trabalhos que o produtor fez com Nicki Minaj.
Uma curiosidade: Minaj virou adoradora de Trump, já Gordon é uma democrata em todos os sentidos, abominando o atual mandatário norte-americano, alvo de suas letras e de recados diretos nas redes sociais.
Posto isso, não tem como deixar a política de lado, pois Play Me reflete os danos colaterais da classe bilionária: a demolição da democracia, o fascismo tecnocrático do fim dos tempos, o achatamento da cultura impulsionado pela inteligência artificial e suas vibrações relaxantes, onde o humor negro expressa o absurdo da vida moderna. Essa afirmação poética e política foi extraída do release disponível no site da cantora, mas acompanhando as letras, você saca isso sem precisar de maiores esforços.
A aversão à tecnologia, e como ela está entranhada em nossas vidas, é refletida em faixas como Dirty Tech, Black Out, Subcon e Post Empire, e o posicionamento político e o tom pessimista, fica evidente ao misturar Trump, machismo e nacionalismo na temática das demais músicas do disco.
Kim Gordon não esconde nem atua nas entrelinhas. Liricamente e musicalmente, ela passa a mensagem que achar necessária, em letras cantadas no estilo falado característico da artista, um vocal peculiar e único, com direito até a auto tune, em Black Out, que, no seu estilo, fica charmoso, já que ela mantém a mesma verve vocal desde os anos 80.
E, se você quer um pouquinho de saudosismo dos tempos de Sonic Youth, a musicista entrega em Not Today a noise guitar de outrora, uma bateria minimalista que poderia ter sido composta por Steve Shelley e, na sequência, emenda com Busy Bee, que contém um sample de uma aparição de sua banda Free Kitten, com Julia Cafritz, ex-Pussy Galore, e conta com uma bateria bem interessante do arroz de festa Dave Grohl.
Uma releitura de Bye Bye, atualizando a letra com críticas a Donald Trump, talvez fosse desnecessária para encerrar o disco.
Play Me segue a linha do ótimo The Collective, que trouxe holofotes mais calorosos a Gordon e fez reacender o interesse dessa geração, que tem muito a ouvi-la e aprender com ela em todos os sentidos. O disco traz modernidade, beats pesados, loops, colagens, guitarras e momentos inspirados em Krautrock.

“Queríamos fazer tudo muito rápido. É mais focado e talvez mais confiante. Eu sempre trabalho com base em ritmos e sabia que queria que fosse ainda mais orientado para a batida do que o anterior. Justin realmente capta minha voz e minhas letras e entende como eu trabalho, isso ficou ainda mais evidente neste disco”, afirma a cantora em seu site.
Dá para sentir a urgência de Kim Gordon em querer transmitir algo importante, até porque a cantora está com 72 anos de idade e, longe de ser taxado de etarista, é só um adendo, pois sua alma e arte são tão contemporâneas que fazem artistas como Billie Eilish e Lorde, entre outras, soarem datadas.
Kim Gordon entregou um disco no mesmo molde que seu antecessor e reafirma o risco que deu certo. Ainda assim, e talvez por ser assim, aberta e sempre indo adiante, ela mostra a coragem de uma artista que viveu e passou por várias experiências e bagagens de vida, atenta a tudo que a cerca, voraz e longe de se entregar ao conformismo.
Créditos
Kim Gordon – Play Me
Lançamento – 13/03/2026
Gravadora – Matador Records
Kim Gordon – vocals (all tracks), guitar (2–8, 10–12), noise (3), harmonies (5), dialogue from MTV Beach House (7)[8]
Justin Raisen – Akai MPC sampler (except 6), bass guitar (1, 2, 6, 7), drum programming (1, 3–5, 7–10, 12), synthesizer (2, 6, 7, 9, 10, 12), drums (2, 6), drum box, rhythm guitar (2), Roland 808 (3, 4, 8, 10), Roland 909 (3), Bass Station synthesizer (5), guitar (6, 7, 12), background vocals (6, 9), drum machine (6), bass synthesizer, foley (9), sub bass (10), fuzzbox (11), Nord (12)
Ainjel Emme – background vocals (2)
Sadpony[a] – drum programming (5, 12), DX7 synthesizer (5)
Julia Cafritz – dialogue from MTV Beach House (7)[8]
Dave Grohl – drums (7)
Anthony Paul Lopez – drum programming, foley, Roland 808, synthesizer (11)
Justin Raisen – production, mixing (all tracks)
Sadpony – production (5, 12)
Anthony Paul Lopez – production (11), mixing (all tracks)
Brad Lauchert – engineering (all tracks)
Mike Bozzi – mastering at Bernie Grundman Mastering (all tracks)
Coco Gordon Moore – body painting
Brian Roettinger – art direction, typography
Annabel Mehran – photography