Capa de Back to the Start

Back to the Start, de Anderson Tilly: às vezes, o melhor remédio é voltar ao início

Tempo de leitura: 7 min

Disco de artista indie do ABC de São Paulo resgata a sonoridade dos anos 90 e o cheiro independente do século passado.

Anderson Tilly lançou, no final do ano de 2025, o disco Back to the Start, que, como diz o título, é uma volta e um resgate aos anos 90, com um pulinho ali nos 80 e, desde já, um clássico da saga dos artistas independentes, no qual denomino “ninguém na multidão”.

Existem os artistas mainstream, os alternativos, os lados B e os “ninguém na multidão”. Ninguém na multidão são aqueles artistas tão competentes quanto talentosos, como todos os citados anteriormente, mas que, para ultrapassar a barreira de todo um aparato do “esquema” ou de uma “panela” estabelecida, ficam por ali mesmo e acabam se conformando com a situação. Anderson Tilly é um desses, e não há problema nisso, pelo menos quando você “ainda está nessa” depois de tanto tempo.

Back to the Start carrega toda aquela aura e cheiro dos anos 90. Tem tudo nesse disco. Tem grunge, tem Pixies, tem Hüsker Dü e tudo o que Bob Mould fez por aquela geração. Tem o pós punk inglês, do Jesus and Mary Chain, passando pelo The Cure, Joy Division, e tem o rock alternativo paulistano, de Pin Ups, Killing Chainsaw e tantas outras, além daquele toque do subúrbio da capital mais rock do Brasil, que cunhou uma infinidade de bandas que ficaram pelo caminho.

O disco condensa todas essas referências em 10 faixas e 28 minutos de pura nostalgia, integridade, emoção, raiva, desilusão, aquilo que fica guardado no peito e que, em determinados momentos, precisa ser expelido. O que seria a arte e os bons sons sem todos esses ingredientes?

Anderson Tilly é um artista quarentão, vindo de Santo André, região do ABC paulista, terra que já foi das indústrias e do punk. Pode se dizer que ele tem muita bagagem no rock “ninguém na multidão”. Em meados dos anos 90 e na primeira metade dos anos 2000, era líder do Hematocele Funesto, um power trio que tinha disco gravado em CD e fazia vários shows pela cidade, com forte influência sobre uma leva de adolescentes desajustados, que ouviam rock nas periferias de São Paulo e viviam à margem dos hipsters de Pinheiros, Perdizes e afins.

Delayed, lançado em 2000 – Foto: Fagner Ramos

Mas fazer rock no Brasil é difícil e, no século passado, fora do eixo hipster paulistano, furar a bolha, termo que não era utilizado na época, era quase impossível. Bandas boas acabaram por vários motivos, quase sempre pelas nece$$idades da vida, e com o Hematocele não foi diferente, porém a fagulha em Anderson continuou acesa.

“O Hematocele parou em 2003 e nós já emendamos com o The Wheels, eu, Fábio Santos, na bateria, e Fábio Nakamatu, na guitarra. Lançamos um EP ao vivo em estúdio e outro EP com gravações em estúdio mesmo, com o Jow no baixo, completando a formação. Mas essa banda durou até 2005 apenas. Na época do Hematocele, eu tive também um projeto com o Luciano e com a Maíra, o Sweet Suicide. Tem nossa demo nos streamings. Bom, depois do The Wheels, em 2005, eu e um amigo meu, Carlos Porto, começamos uma banda de pós punk, o The Silent Party. Ainda fizeram parte da banda o Eduardo Leite, Sandro Gavião, do Hematocele, e o Carlos Eduardo. Lançamos vários trabalhos, singles, EPs e dois álbuns. O primeiro foi por uma gravadora alemã, foi bem legal. O último foi em 2020, uns 10 dias antes da pandemia. Por coincidência, era um disco temático, chamado Endless Year

nos conta Tilly, em um breve relato sobre sua trajetória no rock alternativo.
Bandas que Anderson Tilly fez parte – Foto: Instagram Anderson Tilly

Durante e após a pandemia, Tilly continuou soltando singles e EPs nos streamings, lidando com um mundo cada vez mais apocalíptico, ansioso e polarizado. Fazer música e, consequentemente, fazer arte foi um escapismo mental e social para muitos que, para conseguir passar de fase e não se perder pelo caminho, encontraram como remédio, um modo de revisitar o passado e voltar ao início para seguir em frente. Desse ponto nasce Back to the Start.

O álbum, a princípio lançado apenas virtualmente, foi gravado praticamente todo sozinho.

“Eu fiquei tentando gravar com outras pessoas durante um bom tempo, mas não consegui achar um baterista. Então decidi programar as baterias em um plug in do Reaper e gravar o resto. Com exceção do baixo da primeira música, que foi gravado pelo Luciano, o resto fui eu que gravei mesmo. Não toco nenhum instrumento muito bem, mas toco um pouquinho de cada. Fui gravando aos poucos, fazendo os arranjos, arrumando uma coisa aqui e outra ali, tentando reproduzir os sons que estavam na minha cabeça. Normalmente sai tudo diferente, mas eu gostei do resultado”

relata Tilly.

A primeira faixa, “Your partial truth”, é a que mais se aproxima das músicas feitas no Hematocele. Uma base melódica feita inteiramente em três acordes, com violão, guitarra, bateria, piano e uma linha de baixo muito bem trabalhada pelo Luciano, amigo de longa data e admirador dos trabalhos de Anderson Tilly desde o século passado. Conforme a intensidade da música vai crescendo, as guitarras ficam mais altas e o tema da letra vai fazendo jus ao vocal cantado com raiva.

“Os temas das letras variam desde a desinformação espalhada por políticos, mídia e redes sociais, como em Your partial truth

explica o compositor.

O trabalho simples e melódico, angariado por anos de audiência dos bons sons, como já dizia o Reverendo Massari, é explícito em quatro canções que, sem dúvidas, são os pontos altos do álbum. Platforms, Rearrange, Back to the Start, faixa que dá nome ao disco, e a melhor de todas, Would we’ve made it?, seriam dignas de virarem hits em college radios, tocarem em trilhas de filmes e embalar a vida de muitas pessoas por aí. São faixas com ótimas linhas de guitarra, boas melodias e vocais representando muito bem o estilo de cada composição.

Thank You So Much tem um quê de grunge, caracterizada tanto no riff quanto no peso das guitarras e na temática da letra, que, segundo Tilly, fala de relações abusivas e submissão.

Silver é a sessão acústica do trabalho. Spent Too Much Time poderia ter sido composta pela banda carioca Pelvs, e ainda há espaço para a instrumental Hyena, que me lembra as músicas de surf music instrumental feitas pelos Pixies, e finaliza com Beautiful e o drum machine utilizado pelos irmãos Reid e tantas bandas do indie britânico. Uma boa despedida para o álbum.

“Minha relação com o rock é de amor platônico. Depois de tantos anos tocando com bandas, a única coisa que eu quero é gravar minhas músicas. Claro que, se as pessoas ouvirem e curtirem, eu vou ficar muito feliz. Mas o que eu quero mesmo é gravar as músicas que tenho paradas há anos aqui e também as coisas novas que acabam saindo”

afirma o multi-instrumentista.

Um disco lançado sem pretensões, mas feito por quem viveu a última era ingênua da música, onde compor barulhos e melodias era mais importante do que correr atrás de imagens e falsas audiências. Ao lançar Back to the Start, Anderson Tilly entrega, mesmo sem querer, o maior remédio e o melhor modo de sobrevivência para o caos informativo e o bombardeio de emoções dos dias atuais.

A resposta para a pergunta de Would we’ve made it? é sim, você conseguiu.

Avaliação: 4 de 5.

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