Direto de Oklahoma, terra dos malucos e psicodélicos Flaming Lips e dos bons meninos Hanson, surge o Chat Pile, uma banda que canta as desgraças ou a realidade do mundo em que vivemos, recheado de referências dentro de um mesmo som. No final de setembro, o quarteto lançou um dos melhores trabalhos do ano, o álbum, Who Loves the Sun.
Em seu terceiro disco, o Chat Pile mostra a versatilidade de navegar em diversos mares sem perder a essência e o peso característico que o acompanham desde o início, ao mesmo tempo em que retrata nas suas letras o quanto estamos afundando como seres humanos e destruindo tudo ao redor, materialmente e emocionalmente.

Além do Sludge
Formada em 2019, a banda vem mostrando através de seus discos, singles, EPs e trabalhos colaborativos que não quer se prender somente aos gêneros noise rock e sludge metal que a crítica e os fãs lhe impõem. Sim, eles são identificados com esses estilos, mas vão além. O Chat Pile tem em sua formação: Raygun Busch (vocals), Luther Manhole (guitar), Stin (bass), and Cap’n Ron (drums).

Acompanhando a breve discografia e as gravações do Chat Pile, você percebe que dali pode sair tudo sem assustar o público. Se antes uma banda de metal fosse fazer um cover fora do seu estilo ou executasse qualquer melodia fora do padrão habitual, já era taxada de vendida e traidora, a exemplo do Metallica nos anos 90. Hoje, isso não se aplica às bandas, e nem o público da nova geração se importa.
O quarteto já lançou singles com covers de Roots Bloody Roots (Sepultura), Bulls on Parade (Rage Against the Machine) e Scentless Apprentice (Nirvana). Eles também têm dois trabalhos que exploram o lado experimental. Em 2022, lançaram a trilha sonora do filme TenKiller, estrelado pelo vocalista Raygun Busch, em um misto de peso e sons atmosféricos. Em 2025, lançaram um trabalho ao lado do guitarrista Hayden Pedigo, chamado In the Heart Again, onde exploram camadas acústicas em alguns momentos e pesada em outros.
Criação do caos
Voltando a Who Loves the Sun, de cara você vê uma banda coesa e consciente da bagagem adquirida em tão pouco tempo. Uma de minhas primeiras impressões ao ouvir o trabalho foi o quanto eles teriam a ver com Steve Albini. Talvez seja pela sonoridade que privilegia o timbre aberto da bateria, acompanhado de um baixo marcante e guitarras afiadas, algo que Albini fazia com perfeição em suas gravações. Eles declaram que uma de suas principais influências é o Big Black, banda da qual Albini era líder antes do Shellac.
Ao percorrer as dez músicas de Who Loves the Sun, você consegue encontrar vários sinais além do sludge. Há ecos claros do nu metal tradicional (aquele do Korn), muito do groove metal do Sepultura, pitadas de grunge, um prenúncio de indie rock em alguns momentos, o noise rock e o no wave do Sonic Youth, momentos de stoner e até o post-punk de bandas inglesas dos anos 80. É uma salada de gêneros que a banda consegue transformar e vomitar em um esporro sonoro, sem passar despercebida aos ouvidos atentos.
A chama que acende o pavio é o vocalista e compositor Randy Heyer, que usa o pseudônimo Raygun Busch. Busch é um ótimo cantor, conseguindo percorrer por trechos que precisam de vozes guturais, gritadas e melodiosas. E sabe aquela referência do pós-punk inglês dos anos 80? Ele canta em muitos momentos como se estivesse em bandas góticas britânicas.
Como se não bastasse, suas letras carregam o desespero de viver em um mundo fadado ao fracasso do capitalismo, o que fica explícito na capa do álbum. Temas como masculinidade tóxica, desigualdades sociais, avanço desenfreado da tecnologia, relações destruídas, falta de esperança e exploração da fé são colocados em uma máquina de moer, como se um pedaço de carne podre fosse processado e entregue a uma pessoa que, com fome, se sente saciada pela injustiça e pela falta de moralidade, tratando tudo ao seu redor com banalidade.
Dez faixas de pura realidade
O álbum começa com Creature, um metal brutal, nervoso e pesado que, um pouco depois da metade da música, mostra o quanto o Sepultura é referência para a banda. Deep Blue traz o grunge e talvez seja a faixa mais suscetível a tocar nas rádios, onde fica visível a qualidade vocal de Busch ao sair do scream para a melodia.
O disco segue com Same Rules, a primeira com pitadas de pós-punk inglês e que termina pesada. PEN IS MALL retrata não só a exploração capitalista nos EUA, mas deveria ser um hino para quem se sente explorado. Musicalmente, faz ter raiva de tudo, com riffs que lembram Black Sabbath e Melvins. Shrine é mais uma que começa melodiosa, com bateria pesada e nuances que lembram a banda The Murder City Devils, porém mais pesada.
O álbum prossegue com a faixa pós-punk Intruder, a síntese da mistura de gêneros do Chat Pile em uma única canção. Busch canta em vários formatos, acompanhado de duas backing vocals, Claire Hannah e Brittany Sawtelle (da banda Nightosphere, de Kansas City, Missouri). Cristabell’26 é o sludge entregue com maestria, e Influence repete a dupla de backing vocals em uma faixa com muito groove e rock alternativo dos anos 90.

A música Family Funeral é uma ode ao Big Black, onde tudo lembra Steve Albini, até aquele jeito falado de cantar. O disco termina com a acústica October All The Time, onde a desgraça (no bom sentido) é jogada em nossos tímpanos para dar um ponto final e fazer repensar como estamos levando este mundo para o buraco.
Não tem música mais ou menos em Who Loves the Sun. O disco entrega mais do que o ouvinte e os fãs querem. Enquanto muitos assistem atônitos ao mundo abraçando o caos e ao crescimento do autoritarismo, o Chat Pile esfrega na nossa cara que, do jeito que está, é só ladeira abaixo.
Ficha Técnica
Aaron Tackett – drum kit
Austin Tackett – electric bass guitar
Griffin Sansone – electric guitar
Randy Heyer – lead vocals
Morgan Brown – additional mixing
Ben Greenberg – mixing and mastering
Brittany Sawtelle – background vocals (“Intruder” and “Influence”)
Claire Hannah – background vocals (“Intruder” and “Influence”)
Produção – Chat Pile
Gravadora – The Flenser