Banda de Nashville encontra uma maturidade sonora, sem abandonar o peso de suas raízes.
Os muito americanos All Them Witches (ATW) lançaram, no final de maio, House of Mirrors, o sétimo trabalho do quarteto de Nashville, o primeiro por uma major, a BMG. É um disco que reflete o passado, tanto da banda quanto de suas influências, mas que mostra várias facetas dentro da mesma imagem.
Muitas resenhas e críticas apontaram o disco como o trabalho da banda mais aberto ao sucesso. Sendo direto, é o disco mais comercial da banda. Não conhecia os trabalhos anteriores, então fui atrás, fiz o trabalho de casa, ouvindo e tenho que concordar. É o disco mais bem burilado, produzido, polido e melódico, mas que só realçou a qualidade do All Them Witches.

Muitas vezes, a maturidade sonora é traduzida como uma possível venda da alma, mas não é o caso por aqui. E eles não serão os últimos a passarem por essas afirmações da mídia especializada e principalmente do público.
A banda nasceu em 2012 fazendo um stoner, acid rock, doom rock e blues, com influências nítidas de Black Sabbath, Blue Cheer, Led Zeppelin, Grateful Dead e com raízes fincadas na música raiz americana, como o country e bluegrass. Trazendo mais para a atualidade, eles são filhos do Queens of the Stone Age e toda sua prole do deserto, com pitadas do grunge de Alice in Chains, da fase dos violões, Jar of Flies e o álbum do cachorro manco, de 1995, mas incorporando cada vez mais o psicodelismo de bandas como o Pink Floyd e do hard rock dos anos 70. Isso é o quê? Maturidade sonora.
Entre idas e vindas de integrantes, a banda conta com Charles Michael Parks Jr. (baixo, vocal principal) e Ben McLeod (guitarra, vocais) desde 2012, Allan Van Cleave (piano Rhodes, teclados, violino), que também está desde o começo, mas saiu em 2018 e voltou em 2022, e o baterista Christian Powers, desde 2024.




Uma observação aqui, e que talvez faça sentido na mudança de sonoridade, foi a saída do baterista e fundador Robby Staebler, que compunha junto com os outros integrantes. Ele saiu de um jeito não muito amigável, dizendo que “coisas não muito agradáveis estavam acontecendo”, segundo o site Classic Rock. Nem a banda nem Staebler deram detalhes, mas seriam os novos caminhos sonoros que a banda queria tomar?. Seria a nova veia comercial?

De qualquer forma, House of Mirrors dá um salto em sonoridade se compararmos com seu último trabalho, lançado em 2020, Nothing as the Ideal, que já é um baita disco, mas muito mais prolixo, sombrio e pesado e considerado o ponto alto da carreira do quarteto.
Infelizmente, este trabalho de seis anos atrás foi afetado pela pandemia, o que impediu a banda de trabalhar com ele na estrada com mais intensidade. Vale pontuar uma segunda observação: Nothing foi gravado sem Van Cleave, então o peso seria inevitável, pois as camadas e as melodias de piano, teclados e outros instrumentos não existiram.
Mas, entrando em House of Mirrors, o disco conta com oito músicas, em 43 minutos, no qual não há queda ou espaço para você se distrair. A primeira faixa, Red Rocking Chair, é um deleite para qualquer amante dos bons sons pesados, densos e melancólicos.
A música é uma versão do clássico country-bluegrass de mesmo nome, gravado em 1981 por Doc Watson. O vocal de Charles Michael Parks Jr. lembra um Mark Lanegan, embalado por guitarras e riffs dignos de Tony Iommi e um violino providencial como a cereja do bolo. Na sequência, Cullin Line é o encontro do hard com a psicodelia e um solo de guitarra digno de David Gilmour, feito para fechar os olhos e, quem sabe, ficar emocionado.
O country pesadão aparece em Aethernet, uma música com a cara dos americanos. Hold Up, Say What? me lembrou um Kings of Leon, confesso, e isso não é um demérito, porém mais hard rock e com uma linda linha de baixo. Escute a parada que a música tem e me diz se não lembra os seus conterrâneos do KOL.

Go Getter é quase um prelúdio, destoando do disco, mas muito bem sinalizada e necessária no álbum. Logo depois, começa Starting Line, uma faixa que mistura o lado pesado da banda com o folk e um órgão certeiro na música. Turn on the Light é o lado sensual do vocal, uma música digna de uma cena de filme se passando dentro de uma boate de stripper.
Angel on the Wayside entrega um hard rock à moda antiga, à la Deep Purple. Ponto alto para a base feita pelo tecladista Van Cleave, uma camada muito importante para o som dos Witches. É um teclado que serve à música. Nada de soar cool aqui. The Welterweight, nada me tira, lembra Supertramp no começo e vai emendar em um som espacial, hipnótico, no qual considero a melhor música do álbum.
A própria banda descreve o disco como resultado de uma colaboração construída ao longo de anos e trabalha novamente temas ligados à identidade, angústia existencial e percepção da realidade. Não à toa, encerra o álbum com Saturn Song, uma música que passa um recado: “Salve aqueles que riem à toa. Enquanto eu adormecia, preso no sonho onde estou me afogando, encontrei uma saída da chata casa de espelhos, agora de volta aos meus velhos hábitos, estou a caminho”.
O All Them Witches fez um disco pesado sem precisar estar o tempo inteiro tocando pesado. Muitas vezes, o peso vem do espaço entre os instrumentos, da repetição, dos timbres e da construção lenta das músicas. House of Mirrors mostra como a banda se transforma, sem abandonar suas raízes.