Em seu terceiro álbum, power trio de Joinville troca a repetição estética do alternativo por novas camadas sonoras e entrega seu trabalho mais corajoso
A banda Somaa, de Joinville, lançou na última sexta-feira, 25, o seu novo álbum, intitulado Reino do Espelho. Este é o terceiro trabalho do power trio joinvilense, que desde 2018, quando lançou O Mundo Quer Te Enganar, e em 2023, o Antena, mostra a cada disco uma evolução sonora e um risco calculado em abraçar novos caminhos.
Formada em 2011, a banda reúne Rafael Zimath (guitarra e vocal, ex-Butt Spencer), Tiago Pereira (bateria) e Nedilo Xavier (baixo). O trio já havia lançado EPs, singles e um split antes de estrear em álbum cheio em 2018 pela tradicional Monstro Discos, de Goiânia. Neste novo disco, volta a trabalhar com Gabriel Zander e conta com participações especiais, como a de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish.
A evolução sonora neste novo trabalho não é sobre técnica com os instrumentos (isso fica em segundo plano, até porque do simples nascem coisas maravilhosas, embora os três sejam ótimos músicos). A evolução aqui é exatamente a vontade de explorar novas camadas.

Dança da queda
Um comediante não explica a piada. Um crítico não tem que dar explicações da crítica, pois pode soar como um bundão escrevendo para ficar bem não com o leitor, mas com o artista analisado. Mas cabe a mim explicar a nota 7 que dei para o primeiro single do grupo, Dança da Queda, o que certamente vai corroborar para o restante da crítica
O Somaa é uma banda com bom trânsito na cena nacional. Tem a “colê” com várias figuras carimbadas e isso dá acesso aos meandros do hype. Sim, o alternativo tem o seu hype, e eles usufruem desse benefício, como gravar no Estúdio Costella e ter a produção de Gabriel Zander.
Tanto o Costella é um bom estúdio quanto Capillé e Zander são produtores ok, que, conhecedores dos bons sons, imprimem sua experiência na produção dos artistas. Mas aí é que está: acaba ficando tudo igual. O Antena é um bom disco, com uma produção muito boa, mas algumas faixas do Reino do Espelho acabam entrando na repetição sonora e no padrão estético do anterior. Recebo vários lançamentos de bandas que gravaram no Costella com os mesmos produtores e posso dizer que, sonoramente, não vejo diferença.
Claro que ninguém quer trabalhar com pessoas que não conhece ou que não vivem o mesmo universo (se bem que, na vida fora do mundo artístico, isso é o normal para 80% da população), mas também não queremos soar igual ou mais do mesmo.
Dito isso, Dança da Queda foi uma ótima escolha para single e, em um mundo mais justo, viraria hit radiofônico fácil, caso os caras não estivessem longe demais das capitais e se grande parte dos ouvintes quisesse ouvir novos sons. A música é altamente pegajosa, mas com uma qualidade acima do que se ouve por aí.
O disco e o risco
As dez músicas de Reino do Espelho mostram uma banda criativa em muitos aspectos. O grupo não fica nos acordes comuns, explora os compassos e o timbre de cada elemento é digno de nota. É muito bom ouvir algo em que você consegue reconhecer cada instrumento.
As variações, riffs e afinações de guitarra de Rafael Zimath são um caso à parte. São ótimas linhas, e muito provavelmente, difíceis de executar ao vivo para um único guitarrista no palco dividindo os trabalhos com o vocal (quesito em que ele também manda muito bem). No formato de trio, que fazem isso com maestria, há exemplos como, J Mascis (Dinosaur Jr.) e Daniel Johns (Silverchair), além de referências de bandas maiores que Zimath certamente tem, como Jerry Cantrell (Alice in Chains) e Page Hamilton (Helmet).
A cozinha do Somaa é outro destaque. O baterista Tiago Pereira, músico tarimbado de Joinville, imprime sua criatividade nas composições; por tocar outros instrumentos, ele faz a diferença na hora de montar as passagens de bateria. Já o baixo de Nedilo Xavier me faz gostar ainda mais de ouvir as músicas. Baixista frustrado que sou, fico impressionado com as linhas criadas e como o timbre do instrumento se destaca em todas as faixas. Mesmo hoje em dia, é difícil ouvir um baixo tão pujante e interessante em gravações de rock.

A mensagem das letras aborda o caos e a barbárie em que vivemos, o excesso de informações, a alienação, os “milhões de views e milhões de ninguém viu” (essa é do Black Alien). Aliás, esta é a segunda crítica que faço de um disco em que as letras abordam temas contemporâneos semelhantes, escrita por rockeiros que conheceram e viveram o rock dos anos 90. Seria um reflexo dos tempos?
E qual foi o risco? O risco calculado foi a banda alternar de estúdios e trazer Zander para trabalhar fora do padrão. E o principal risco (que considero o ponto alto para o disco ser melhor) foi a visão de outra produtora, neste caso, Nattana Alvarenga, do duo NPKN, responsável pela produção das músicas Gaiola, Lava e Transe.
Se o Somaa soa pesado e bem gravado com os Costellers, nas mãos de Alvarenga isso foi amplificado e fez a música do trio dar o próximo passo, sendo a cereja do bolo.
Faixa a faixa
Colocar dez músicas em um álbum hoje é um gesto de resiliência. Quem escuta um álbum completo? Quem passa dos 15 segundos de uma música? Mas fazer um trabalho como Reino do Espelho não teria sentido se não fosse apresentado no conceito arcaico que alguns ainda apreciam. Eu aprecio.
A primeira música (a abertura, o abre-alas) já denota como o restante do álbum vai soar. Eco e Narciso é um bom chamariz e emenda com Medo do Medo, que tem uma letra muito boa e um riff simples, que pega e fica na cabeça.
Na sequência, Coroas de Papel traz um grunge absurdo, foi assim que eu anotei quando ouvi pela primeira vez. Em Desvio, há groove e suingue: a linha de baixo de Nedilo e o beat no meio da música são um charme. O hit, Dança da Queda, é o que já expliquei. Refrão que fica na cabeça, o que é importante, com destaque para o vocal de Rafael, que canta com sentimento e acredita no que faz. Adoro quando a música chega aos 2 minutos e 55 segundos.
O primeiro feat surge em Verdade Acrobatas, com a presença de Rodrigo Lima, do Dead Fish. A música é ótima, mas confesso que não entendi a participação e nem ouvi muito a presença do Rodrigo. Acho a presença dele ali dispensável, embora entenda a lógica dos feats hoje em dia (há até estudos sobre isso).
Agora, sobre o valor de arriscar: Gaiola é uma música muito acima da média. Não é só o piano, não é a parte orquestrada no meio, não é a letra, é todo o conjunto. Quando uma música arrepia, ela cumpre seu papel. A melhor do disco.
Vamos ao feat de verdade: Lava é encarada como um blues e soa como trilha de boate para filme do David Lynch. A voz de Nattana é absurdamente boa, trazendo uma baita presença para a faixa.
Avenida Beira Rio é uma ode a Joinville (só quem é de lá entende a letra). Acústica e com o violino de Gabriel Vieira, a canção mostra uma parte da cidade que insiste em ignorar o Somaa. Se eles tivessem saído de lá em outro momento, seriam uma banda reconhecida como merecem. Há outras que saíram de lá sem 10% dessa qualidade, odeiam ser tratadas como banda de Joinville e são bem mais abraçadas.
A última faixa, Transe, reúne tudo o que enxergo no banda: muito de Alice in Chains, a maturidade da fase wall of sound do Silverchair, uma dose neste disco de Afghan Whigs e uma certeza: vale a pena se arriscar.
O Somaa é uma banda pronta, coesa, com músicos que sabem o que querem e que poderiam ir além. A maturidade dos integrantes e a carreira fora da banda talvez os ajudem a não focar tanto nisso, mas um trabalho como esse não deveria ficar restrito a nichos.
No final, Reino do Espelho mostra que há um caminho fora do eixo-padrão e que o cálculo do risco de explorar novos caminhos valeu a pena. Não é preciso ser vidente para ver onde isso acaba, basta fechar os olhos e tirar os pés do chão.
Ficha Técnica
Rafael Zimath – Vocal, guitarra e violões
Tiago Luís Pereira – Bateria e voz
Nedilo Xavier – Baixo
Músicos convidados: Rodrigo Lima: vocais em “Verdades Acrobatas”
Nattana Alvarenga: vocais em “Lava”
Kimberly Neves: teclado e orquestração em “Gaiola”
Gabriel Vieira: violino em “Av. Beira Rio”
“Reino do Espelho” Produção, mixagem e masterização: Gabriel Zander Gravado nos estúdios Toca Records (Joinville), Costella (São Paulo) e Kittana Produções (Joinville) e Araruna (Joinville).
Arte da Capa: Pedro Gonçalves
Diagramação da capa: Rodrigo Falk Brum