Garage Fuzz (Foto: divulgação)

A nova rota do Garage Fuzz: como o EP Powerplant sela a era Victor Franciscon

Tempo de leitura: 7 min

Sem perder a essência técnica dos 35 anos de estrada, ícone do rock alternativo santista abraça o hardcore melódico e mira a sonoridade californiana.

A banda santista Garage Fuzz lançou, no dia 14 de agosto, seu novo trabalho: Powerplant. O EP faz o quinteto abraçar de vez o hardcore melódico, distanciando-se da “Califórnia brasileira” e se aproximando da sonoridade rápida da Califórnia americana.

Com seis faixas, este é o primeiro trabalho em que Victor Franciscon, atual vocalista, imprimiu de fato sua marca no Garage Fuzz, um dos pilares do rock alternativo nacional. Victor, que assumiu os vocais no lugar de Alexandre Cruz (Farofa) em 2021, já havia gravado o single Let the Chips Fall (2021) e o EP Grawlix (2024).

Garage Fuzz (Foto: divulgação)
Garage Fuzz em 2026 (Foto: divulgação)

Há 35 anos na estrada, a banda continuou fiel à sua união de punk, hardcore e guitar, mas, em Powerplant, o hardcore melódico se sobressai. Mesmo com mudanças na formação, o Garage Fuzz manteve sua base fiel de fãs e vem conquistando novos ao longo do caminho. Ao lado do Sepultura, talvez seja a banda que canta em inglês mais longeva e respeitada do Brasil.

O grupo estará em São Paulo no dia 25 de setembro, ao lado do Samiam, para um show no Hangar 110, com ingressos esgotados. No dia 26, estará em Curitiba, no Belvedere House of Culture, também com a banda californiana, além da paulistana Deb and The Mentals e da curitibana Simplesmentes.

A banda hardcore de Santos

A cidade de Santos recebeu a alcunha de “Califórnia brasileira” devido ao efervescente cenário de rock dos anos 80 e 90, e o Garage Fuzz tem papel fundamental nisso. Vários integrantes fizeram parte de nomes influentes da cena local, como Ovec, Psychic Possessor e Safari Hamburguers.

Formado em 1991 por Alexandre Cruz (vocais e guitarra), Fabrício de Souza (baixo) e Daniel Siqueira (bateria), o Garage Fuzz teve Marco Butcher (Pinups e Thee Butchers Orchestra) e Fernando Zambelli nas guitarras. Com a saída de Marco para o Pinups, Wagner Reis assumiu as cordas. Com isso, o grupo consolidou sua formação clássica de quinteto: Farofa, Fabrício, Daniel, Fernando e Wagner.

Quando emergiu, a banda uniu o passado punk às influências das guitar bands e do grunge de Seattle, sendo pioneira em terras tupiniquins ao flertar com uma sonoridade semelhante à do Seaweed.

Durante os anos 90 e 2000, o Garage Fuzz aperfeiçoou seu som absorvendo influências de Dinosaur Jr., Hüsker Dü, Samiam e até do metal, cujos solos de guitarra deixavam transparecer a verve metaleira do quinteto.

Após a saída de Fernando, em 2009, seu xará, Fernando Basseto, assumiu as cordas da guitarra solo. Farofa deixou o grupo em 2021, dando espaço para Victor, ex-Bullet Bane, assumir no mesmo ano.

Qualidade técnica e mudanças

Todos os integrantes são excelentes músicos. Considero o Garage Fuzz dono de uma das melhores cozinhas de baixo e bateria do país. Fabrício me lembra Steve Harris no jeito de tocar e compor (dentro da temática hardcore, claro), e Daniel, que hoje se divide com o CPM 22, é um dos melhores bateristas que este país já teve. Fernando Basseto, há mais de 15 anos no grupo, segurou o legado de Zambelli com linhas e solos primorosos. A guitarra base de Wagner é a essência dos sons alternativos, funcionando como um Malcolm Young, do AC/DC. Na frente, havia Farofa, cara que trazia na bagagem influências que mudavam a rota musical da banda.

Após a saída do antigo frontman, o grupo se achou rápido nos anseios do novo integrante. No primeiro single, Let the Chips Fall, com a faixa Elephant, a tendência de seguir o jogo foi uma ótima tacada, pois os fãs abraçaram a transição rapidamente. Havia um sentimento de continuidade. Quase tudo parecia igual, do jeito de cantar à postura no palco, o que não significa que foi algo proposital, já que Farofa sempre foi uma influência declarada para Victor. Naquele momento, era o caminho necessário.

Garage Fuzz completa 35 anos na estrada (Foto: divulgação)

Segundo entrevista recente de Victor ao site TMDQA, sua base sempre foi o hardcore melódico. A sonoridade do novo EP não poderia soar diferente. Até o vocal se tornou mais melódico: com Farofa, a métrica era mais falada, o que tornava o som quase matemático. Com Victor, a lírica desliza em harmonias, como um carro veloz em uma highway americana, só na reta, com o vento e o sol na paisagem.

Cerca de cinco anos depois, após muitos shows e com o público conquistado, chegou a hora de marcar território. Com o lançamento de Powerplant, fica nítida a assinatura do novo vocalista.

Enfim, hardcore melódico!

Ao assumir um papel além do frontman, Victor passou a compor mais e assinou todas as letras do novo trabalho. O registro aborda saúde mental, ansiedade, o desgaste causado pela tecnologia, redes sociais e acúmulo de informações, temas que fazem parte da realidade dos jovens contemporâneos.

Segundo Victor, o título Powerplant, que também dá nome à primeira faixa, é inspirado em tópicos relacionados à energia elétrica, em uma metáfora com o modo de vida atual das pessoas. Suas letras falam do desgaste, da estagnação e de como viver e lidar com sensações e pressões que afetam a saúde mental. Seria uma espécie de usina de energia, onde vivemos em um sistema no qual não podemos parar de produzir, mesmo operando no limite, o que nos faz sentir obrigados a competir mais e mais.

Em pouco mais de 20 minutos, a banda emenda seis músicas que tratam das temáticas citadas e com uma sonoridade que lembra mais Lagwagon e bandas da Fat Wreck Chords, gravadora do Fat Mike, do NOFX, do que as bandas citadas por Fabrício, ainda durante entrevista ao site TMDQA (como Real Estate, Afghan Whigs e Quicksand). O Garage Fuzz nunca soou exatamente como suas referências fora do hardcore, mas deixava impressões em suas composições. Em Powerplant, elas passam longe.

A faixa Jaded, lançada em Grawlix (2024) e redefinida aqui, é a que mais destoa sonoramente do registro. Vale pontuar que a linha de baixo de Fabrício é o ponto alto da canção do início ao fim.

Por fim, Powerplant confirma que o Garage Fuzz é uma banda técnica, coesa, resiliente e corajosa, mas que, neste disco, aponta para caminhos sonoros mais diretos do que os trilhados em seus 35 anos. A lírica é da Califórnia santista, com temas densos; as melodias, da Califórnia americana.

Capa do Powerplant
Capa do Powerplant

A turnê de divulgação prossegue neste final de semana ao lado do Samiam, banda que não só serviu de influência, mas foi fundamental ao abrir caminhos quando, em 2002, lançou o álbum Working On The Title e um split com o Solea (projeto paralelo de Sergie Loobkoff). Naquela época, Loobkoff veio com o Samiam para uma longa turnê pelo país, alterando o rumo dos dois grupos. Mais de vinte anos depois, esse encontro se repete nos palcos. 

Avaliação: 3.5 de 5.

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