Capa de Caution, do Hot Water Music

Caution: o disco que revelou o Hot Water Music no Brasil

Tempo de leitura: 8 min

A banda de post hardcore Hot Water Music (HWM), da Flórida, mais precisamente da cidade de Gainesville, lançou o disco Caution em 8 de outubro de 2002. Apesar de ser o sexto álbum da banda e o segundo pela Epitaph Records, de Brett Gurewitz, do Bad Religion, esse foi o disco que levou a banda a alcançar um público maior no Brasil.

O álbum foi o primeiro a ser lançado simultaneamente nos EUA e no Brasil, via Sum Records e Roadrunner Records, diga-se de passagem, em uma edição que respeitava o fã. Seu encarte continha todas as letras e informações, algo que nem sempre ocorria e ocorre no Brasil.

Banda durante apresentação ao vivo

A banda sempre teve seu séquito de fãs independentes por aqui, mas Caution abriu portas para que um público sedento de novidades e embalado pela febre do emo pudesse conhecer o quarteto. Bandas como Noção de Nada, Dead Fish, entre outras, emulavam a sonoridade do HWM dos anos 90, época em que a banda ainda lançava trabalhos pela No Idea Records e Some Records. 

Referências

O Hot Water Music dos trabalhos pré Epitaph trazia uma cadência à la Fugazi, misturada ao rock alternativo praticado nos anos 90 e a bandas clássicas do punk e hardcore americano dos anos 80, como Minor Threat, Dag Nasty e Black Flag, entre tantas outras. Certa vez, Jason Black, em uma entrevista à Billboard, afirmou que a banda também colocava nesse caldeirão o Van Halen.

Voltando ao Caution, o disco apresentado ao público brasileiro era o Hot Water Music com todas as referências já citadas, mas um pouco mais polido e com certa verve pop. Não o pop convencional, mas aquela música feita para tocar pelo menos nas rádios de rock ou em trilhas inesperadas, das quais nem mesmo a banda imaginou fazer parte. O Caution, por exemplo, cedeu a faixa Remedy, música de trabalho do grupo, para a trilha do famoso jogo de videogame Tony Hawk’s Underground.

Fazer parte da trilha de um videogame foi a porta de entrada para várias bandas ampliarem seu público. Não foi diferente com o HWM.

O disco foi produzido por Brian McTernan, o mesmo produtor do primeiro trabalho da banda pela Epitaph, A Flight and a Crash, que ainda trazia um pouco mais da sonoridade que os consagrou em lançamentos anteriores. Em Caution, fica evidente que banda, produtor e gravadora estavam entrosados e preparados para o próximo passo. É claramente a tentativa da banda de mostrar ao mundo do rock a qualidade de suas melodias sem abrir mão da parte visceral do hardcore do quarteto.

Faixa a faixa

As três primeiras faixas, Remedy, Trusty Chords e I Was On a Mountain, viraram hinos nos shows da banda. Elas trazem o peso, a rapidez, o lado experimental e as harmonias vocais, ponto fundamental na história do grupo, com Chuck Ragan, dono da voz rouca, e Chris Wollard, com seu grito melódico, características marcantes da banda ao longo de toda a carreira.

One Step to Slip traz a guitarra sincopada, que às vezes lembra um ska acelerado. A seguinte, It’s All Related, mostra o carimbo Fugazi de fazer música. Baixo bem marcado, bateria que respeita a cozinha da banda, guitarras invadindo propositalmente o espaço uma da outra, outra qualidade de Ragan e Wollard que, além de ótimos vocalistas, são excelentes guitarristas, e um refrão pegajoso.

Faixas do álbum em CD (Foto: Michel Matos)

O disco segue com The Sense, que mostra o carimbo Epitaph, emenda com Not for Anyone, uma quase balada hardcore que traz variações de estilo e mudanças no meio da faixa, e joga um esporro nos ouvidos com Sweet Disasters, ótima para rodas de pogo nos shows.

Um ponto de atenção no HWM é a cozinha da banda. Jason Black, no baixo, e George Rebelo, na bateria, são tão competentes quanto Ragan e Wollard e igualmente fundamentais para o estilo único de fazer som pesado da banda. Em todos os discos, eles sempre estiveram muito bem posicionados, com linhas melódicas que ora trazem influências de bandas experimentais, ora influências do reggae e do dub jamaicano. Alright for Now mostra isso perfeitamente e é a melhor música do disco.

A décima faixa, We’ll Say Anything We Want, é um punk rock com cara de rock dos anos 90. Já Wayfarer, se não é a mais conhecida do álbum, é uma das mais queridas nos shows, com seu refrão “ooooooo ooooo oooo oooo”, uma delícia de ouvir e pular. O disco encerra com The End, digno do nome dado à composição.

A arte de Caution

Vale apontar também que algumas linhas de guitarra tiveram o auxílio do mestre Brian Baker, lendário guitarrista do Minor Threat, Dag Nasty e, há três décadas, integrante do Bad Religion. Baker é considerado um dos pais do emocore. Muitas bandas do famigerado termo emo beberam diretamente no modo Baker de tocar guitarra, e muitas copiaram o jeito de compor do Hot Water Music. 

Arte assinada por Scott Sinclair

Outro fato relevante a ser dito são as artes das capas da banda. Quase todos os discos do Hot Water Music têm ilustrações feitas pelo pintor e artista plástico Scott Sinclair.

Conhecido por SINC, o artista possui influência cubista, remetendo às obras de Pablo Picasso. Desde o logo até os desenhos icônicos dos álbuns, seu trabalho faz do artista uma peça fundamental na mensagem que a banda quer passar aos fãs.

No caso de Caution, o conceito da arte reflete diretamente o sentimento do grupo naquela época. Segundo uma análise de David Anthony para o site Riot Fest, Sinclair procura transmitir, na arte, o momento de transição pelo qual a banda passava ao tentar alcançar um público maior.

O personagem enclausurado é representado por uma figura humanoide abstrata e distorcida, com uma expressão melancólica, tentando se encolher e se espremer para caber dentro de uma caixa geométrica estreita. Esse elemento visual representa o sentimento de sufocamento, as pressões externas e as restrições autoimpostas.

Já o pássaro vermelho brilhante e uma estrela, juntos, funcionam como metáforas para uma saída, um guia e o caminho a seguir, mostrando que a liberdade estava ao alcance daquele personagem, no caso, da banda.

A relação do Hot Water Music com o Brasil 

O Caution foi bem avaliado por algumas publicações e afastou de vez a banda daquela sonoridade que a consagrou nos anos 90. Por outro lado, abriu portas para que o grupo seguisse fazendo shows e renovando cada vez mais seu público.

Formação do HWM com, Chuck Ragan, Chris Wollard, Jason Black, George Rebelo e Chris Cresswell desde 2017

O HWM é muito querido no Brasil, algo que sempre deixou os integrantes atônitos, pois, sempre que a banda se apresenta por aqui, é sucesso na certa. Eles já estão com uma turnê marcada para várias apresentações em 2027, passando pelas cidades do Rio de Janeiro, Florianópolis, Curitiba e dois dias no lendário Hangar 110, sendo que uma das datas já está esgotada.

Avaliação: 3.5 de 5.

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