Slift ao vivo (Foto: Divulgação)

Slift mostra em seu álbum Fantasia a beleza do caos

Tempo de leitura: 7 min

Às vezes nos perguntamos: como deixei passar batido essa banda? Como não fui impactado antes por essa música ou disco? Na década passada, a resposta seria fácil, pois tínhamos poucos canais de acesso a alguns sons e tipos de músicas. Hoje, com a internet, streamings e milhares de recomendações sendo feitas por pessoas físicas ou pelos meios digitais, a resposta também pode soar fácil. É muita coisa acontecendo tudo ao mesmo tempo agora e muita coisa vai escapar. Mas, no caso da banda francesa Slift, soa como arrependimento não ter me conectado com os caras antes.

De qualquer forma, o quarto, isso mesmo, quarto trabalho dos caras chegou aos meus ouvidos e já faz pelo menos dois meses que ouço constantemente, embasbacado com a qualidade do power trio. Fantasia, lançado em 5 de junho deste ano, é uma perfeição de música pesada, moderna e progressiva, feita por apenas três caras supercompetentes. E nem parece que são apenas três, pois são tantas camadas que fazem o som soar grandioso, digno de grandes obras do rock.

Capa do quarto álbum do Slift

Eu costumo comparar bandas com outras que já ouvi ao longo da estrada. É inevitável. Mas comparar não significa que as igualamos. É simplesmente um método de achar um norte para descrevê-las de um modo mais fácil. Após muitas audições desse disco, posso dizer que o som do Slift feito em Fantasia é um misto de Refused e Mars Volta, com Pink Floyd da fase Animals e The Wall e Black Sabbath, além daquele toque charmoso que o francês sabe dar em qualquer estilo.

A banda é formada pelos irmãos Jean Fossat (guitarra, vocal e sintetizadores) e Rémi Fossat (baixo), e pelo amigo de escola Canek Flores (bateria). Todos formados em música clássica, um ponto importante para entender o refinamento das composições dos caras. Eles criaram a banda em 2016, muito influenciados por bandas de garage e stoner rock e, em 2017, lançaram um EP chamado Space Is the Key, ainda com uma pegada focada no garage rock.

Em 2018, lançaram o primeiro disco, La Planète Inexplorée, disponível somente no Bandcamp. Ainda não tinham o refinamento atual, mas já davam indícios do que viriam a se tornar, pois a base e o lado space rock e progressivo da banda estavam ali. A primeira faixa, Heavy Road, é uma pérola. Depois disso, a banda só foi progredindo, até que, em 2020, lançou Ummon, o segundo trabalho, que, apesar de ter sido levemente ofuscado pela pandemia, que impediu os shows da banda, chamou a atenção do público e da mídia especializada mundo afora. Ummon incorporava o krautrock e deixava o trio ainda mais especial.

O Slift é: Jean Fossat (guitarra, vocal e sintetizadores) e Rémi Fossat (baixo), e pelo amigo de escola Canek Flores (bateria) (Foto: divulgação)

Com ótimas críticas e resenhas, a banda participou da live da Levitate Sessions e depois da KEXP, sendo ponto de partida para apresentações nos Estados Unidos e, assim, conquistar cada vez mais apreciadores. Em 2024, foi a vez de Ilion, o terceiro disco, desta vez pelo selo da Sub Pop. A banda abraçou de vez o progressivo, com a faixa-título durando 11 minutos, o que, nos padrões instantâneos atuais, é considerado rebeldia comercial, um tiro no pé. Mas é aí que entram os artistas que se preocupam mais com a arte do que apenas em ser o próximo viral.

A obra

Agora, em Fantasia, o disco que contém oito faixas em 48 minutos, algo que soa até peculiar para os padrões do Slift, faz o trio parecer estar mais aberto ao sucesso de público. Todas as músicas são extremamente bem produzidas e mostram o lado cada vez mais épico da banda. Antes existia o caos. Hoje, o caos está um pouco mais controlado, mas, ainda assim, preciso e necessário.

O vocal de Jean Fossat aparece cada vez mais nítido e coeso, com gritos moderados, mas não menos desesperadores para a mensagem a ser passada. As letras de Fossat deixaram um pouco de lado a ficção científica e, inspirado pela obra do escritor argentino Luis Borges, que mistura contos, ensaios e poesias para explorar o infinito, os labirintos, os espelhos e a dúvida sobre o que é real ou sonho, aborda temas presentes nos dias atuais, como xenofobia e preconceito.

A faixa-título, Fantasia, une a perfeição de melodia, estilos e peso que permeia todo o álbum e fica cada vez mais linda e gigante quando emenda com a faixa seguinte, Corrupted Sky. O disco do Slift parece ser feito para ser tocado ao vivo na íntegra, como uma peça clássica, em que, se algo for cortado, perde o sentido. Não à toa, a escola dos integrantes é a música clássica. As seguintes, The Village e A Storm of Wings, só realçam o leque de influências e camadas que a banda vem ganhando ao longo do tempo.

Voltamos à ficção e à grandiosidade do álbum. Orbis Tertius lembra o auge de bandas como Trail of Dead. Caos, pausas e o crescer do dedilhado das guitarras para, assim, tudo explodir. Ponto alto para o baterista Canek Flores, que toca pesado em todo o álbum, e para o entrosamento de guitarra e baixo dos irmãos Fossat. A sexta faixa, Waiting Man, lembra as composições teatrais de Roger Waters para The Wall. Mais uma vez, a guitarra é o fio condutor da sensação de angústia que o ouvinte possa vir a sentir quando estiver tomado por sua melodia. Tudo explode na sequência, como se o universo pudesse deixar de existir a qualquer momento.

Fantasia tem esse poder de fazer o ouvinte viajar a cada faixa. The Day of Execution entra na medida certa no imaginário de um planeta em pleno caos e descontrole. Uma das mais rápidas do álbum, é a música para desopilar a raiva. Tudo termina com Secret Mirror. Foi um sonho ou foi um pesadelo? Você pode se questionar ao terminar de ouvir o disco com essa música. Muito teclado e sintetizadores para, na sequência, receber uma patada na orelha e, assim, acordar e ver que já vivemos em compasso de espera para o fim do mundo. Só resta saber como queremos apreciar.

Avaliação: 4.5 de 5.

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