O baterista do Fugazi, Brendan Canty, contou recentemente ao site Consequence como foi fazer a trilha sonora de um documentário que conta a história do mercado pirata de brinquedos obsoletos dos parques da Disney e, de quebra, declarou que uma possível volta da banda de Washington está aberta.
Durante a entrevista, feita para Spencer Kaufman, o baterista do Fugazi falou um pouco sobre sua vida atual, sobre cinema e trilhas para filmes e documentários e como enxerga sua atual relação com a música e o Fugazi.
Trilha para filme sobre a Disney e amizade com idealizadores do Jackass
Vivendo como compositor de trilhas para filmes, Canty relata ter se encantado com a história por trás de Stolen Kingdom e, em certo ponto, se identificou com os personagens, que, segundo ele, pareciam um bando de skatistas indo atrás da próxima emoção.

O filme aborda a história de pessoas que exploram o mundo Walt Disney World atrás de bonecos e brinquedos abandonados em estoques e galpões da companhia. O ponto central do documentário conta o desaparecimento do boneco Buzzy, um Audio-Animatronics, da atração Cranium Command, no pavilhão Wonders of Life, do parque temático Epcot, no Walt Disney World Resort.

Quando Josh Bailey, produtor do documentário, o procurou para fazer a trilha, Canty diz ter sentido uma enorme conexão, não só com a história, mas também com Bailey. Para o compositor, ambos têm os mesmos gostos e, apesar de serem de gerações diferentes, se conectam através do punk rock, da música e da cena alternativa.
Eles também possuem um círculo de amizade dentro de mercados semelhantes. Ambos são amigos de Jeff Tremaine, diretor, produtor e roteirista que ficou famoso por ser um dos responsáveis pelo programa Jackass, ao lado de Spike Jonze e Johnny Knoxville. Canty compôs músicas para a série de esportes 30 for 30, em dois episódios dirigidos por Tremaine.
Método e inspirações para compor
Para o processo de criação da trilha de Stolen Kingdom, Canty conta que se baseou em aspectos de suspense e no que Bailey gostaria em cada cena, tratando a composição como um processo criativo de várias mãos e cabeças. Mas ele também se inspira em outros compositores, como Bernard Herrmann, que fez trilhas para Psicose e Taxi Driver, além de sempre admirar sons atmosféricos, como a obra de Brian Eno, com sintetizadores.
Em determinado momento, Canty cita seu gosto por composições de músicas clássicas e texturais, como Arvo Pärt e Mahler, tendo o piano como referência. Apaixonado pelo instrumento, ele diz tocar muito piano em sua casa.

Trabalhos, filhos e o rock
O baterista e compositor relata que já trabalha com trilhas há mais de 15 anos, desde o hiato do Fugazi. A parada da banda o fez ter quatro filhos e, consequentemente, perder a vontade de entrar em turnês. Com isso, ele migrou para as trilhas de documentários, séries para a National Geographic, uma série sobre prisão chamada Hard Time, comerciais, vídeos políticos e acabou de terminar a trilha para o fotógrafo Glen Friedman, famoso por cobrir a cena hardcore de Washington, chamada Fuck You Heroes.
No meio disso tudo, a música com banda voltou a fazer sentido. Canty diz ter acabado de voltar de uma mini turnê com sua banda, The Messthetics, além de trabalhar em mixagem e produção para a banda Sensor Ghost, de Ian Svenonius.

Para ele, a diferença de compor para uma banda é que você trabalha para as sensações do público. Já compor trilhas é algo mais solitário, em que você precisa atingir a sua satisfação para depois se propor a satisfazer o diretor que o contratou e, assim, o público que terá contato com a obra ao assistir ao filme.
E o Fugazi?
Brendan é questionado se voltaria a tocar com a banda e sua resposta foi categórica: “Nunca diga nunca”. Felizmente, ainda somos amigos. Nos vemos e nos reunimos o tempo todo para falarmos sobre música ou para alinharmos lançamentos, como o último, In the Kill Taker Albini. Ainda estamos fazendo coisas ponderadas e respeitosas com o nosso legado”, conta Canty ao Consequence.

Ele também relata ofertas que a banda recebe para as músicas, como inserções em filmes ou comerciais, mas que, nesse ponto, todos estão de acordo sobre o que fazer em relação a isso.
O baterista afirma categoricamente a vontade de voltar a tocar com o Fugazi. “Eu adoro tocar e compor com os caras, mas estamos em momentos diferentes. Guy mora em Nova York, o Ian cuida da gravadora e de tudo que está relacionado a ela, e eu e o Joe estamos fazendo nossa parte para nos mantermos em forma”.

Para Canty, o importante é todos se manterem fiéis ao que acreditam. Ele se diz surpreso com a vontade do público de ter a banda de volta, algo em que não acreditava quando decidiram pelo hiato. Ele se diz orgulhoso por tudo que construiu e pelo interesse das pessoas em seus trabalhos atuais. Hoje, aos 60 anos, até vender suas coisas depois dos shows é algo que lhe dá bastante prazer, pois o coloca diretamente em contato com o público.
Ele se diz emocionado com relatos de fãs que contam ter visto o Fugazi aos 16 ou 18 anos e que hoje, aos 50, continuam prestigiando a banda através de seus outros trabalhos.

“Eu nunca imaginei chegar aos 60 anos. Quando se é jovem, você pensa no futuro e não consegue imaginar como seria a vida depois de uma certa idade. Ao ouvir as pessoas contando sobre momentos emocionantes ou caóticos em nossos shows, fico muito feliz. Por isso, nunca digo nunca.”
O Fugazi é uma das bandas mais influentes do rock e do rock independente. Oriunda de bandas como Minor Threat, do vocalista e guitarrista Ian MacKaye, e Rites of Spring, de também guitarrista e vocalista Guy Picciotto, a banda foi formada em 1986, com Canty na bateria e Joe Lally no baixo, e durou até 2003.

O quarteto fazia um post-punk muito voltado à música experimental e ao art rock e foi uma das precursoras do post-hardcore e do post-rock. O líder, Ian MacKaye, falava que a ideia do Fugazi era ser a mistura do MC5 com o reggae.
Outro fator preponderante para o respeito à banda eram seus ideais anti-establishment e anticapitalistas. A banda foi procurada por grandes gravadoras, mas sempre preferiu ter controle da sua obra, sem qualquer interferência externa. MacKaye, que já tinha a gravadora Dischord, lançou os oito discos da banda por ela. Outro fato que chamou atenção era que seus shows tinham valores de no máximo US$ 5, para serem o mais acessível possível.
Após a banda optar por dar um tempo, todos os integrantes foram trabalhar em projetos paralelos. Brendan Canty, apesar de ter seguido com o trabalho em trilhas sonoras, montou o Garland of Hours, com Amy Domingues e Jerry Busher, lançando um disco, e mantém o The Messthetics, com Joe Lally.
Canty também fez parte da banda de Wayne Kramer, fazendo o revival do MC5, tocou em discos e turnê de Bob Mould, do Hüsker Dü e do Sugar, e produziu o DVD da carreira solo de Eddie Vedder, Water on the Road, tocando bateria na faixa All Along the Watchtower, de Bob Dylan.
