Brendan Canty, hoje com 60 anos, dedica-se às trilhas sonoras, mas ainda enxerga uma porta aberta para o retorno do Fugazi (Foto: Divulgação)

Brendan Canty faz trilhas para filmes, é pai de quatro filhos e avisa: “Nunca digo nunca com o Fugazi”

Tempo de leitura: 9 min

O baterista do Fugazi, Brendan Canty, contou recentemente ao site Consequence como foi fazer a trilha sonora de um documentário que conta a história do mercado pirata de brinquedos obsoletos dos parques da Disney e, de quebra, declarou que uma possível volta da banda de Washington está aberta.

Durante a entrevista, feita para Spencer Kaufman, o baterista do Fugazi falou um pouco sobre sua vida atual, sobre cinema e trilhas para filmes e documentários e como enxerga sua atual relação com a música e o Fugazi.

Trilha para filme sobre a Disney e amizade com idealizadores do Jackass

Vivendo como compositor de trilhas para filmes, Canty relata ter se encantado com a história por trás de Stolen Kingdom e, em certo ponto, se identificou com os personagens, que, segundo ele, pareciam um bando de skatistas indo atrás da próxima emoção.

Carta do filme, Stolen Kindom
Carta do filme, Stolen Kindom

O filme aborda a história de pessoas que exploram o mundo Walt Disney World atrás de bonecos e brinquedos abandonados em estoques e galpões da companhia. O ponto central do documentário conta o desaparecimento do boneco Buzzy, um Audio-Animatronics, da atração Cranium Command, no pavilhão Wonders of Life, do parque temático Epcot, no Walt Disney World Resort.

Boneco Buzzy, um Audio-Animatronics, da atração Cranium Command (Imagem: Filme stolen Kingdom)
Boneco Buzzy, um Audio-Animatronics, da atração Cranium Command (Imagem: Filme stolen Kingdom)

Quando Josh Bailey, produtor do documentário, o procurou para fazer a trilha, Canty diz ter sentido uma enorme conexão, não só com a história, mas também com Bailey. Para o compositor, ambos têm os mesmos gostos e, apesar de serem de gerações diferentes, se conectam através do punk rock, da música e da cena alternativa.

Eles também possuem um círculo de amizade dentro de mercados semelhantes. Ambos são amigos de Jeff Tremaine, diretor, produtor e roteirista que ficou famoso por ser um dos responsáveis pelo programa Jackass, ao lado de Spike Jonze e Johnny Knoxville. Canty compôs músicas para a série de esportes 30 for 30, em dois episódios dirigidos por Tremaine.

Método e inspirações para compor

Para o processo de criação da trilha de Stolen Kingdom, Canty conta que se baseou em aspectos de suspense e no que Bailey gostaria em cada cena, tratando a composição como um processo criativo de várias mãos e cabeças. Mas ele também se inspira em outros compositores, como Bernard Herrmann, que fez trilhas para Psicose e Taxi Driver, além de sempre admirar sons atmosféricos, como a obra de Brian Eno, com sintetizadores.

Em determinado momento, Canty cita seu gosto por composições de músicas clássicas e texturais, como Arvo Pärt e Mahler, tendo o piano como referência. Apaixonado pelo instrumento, ele diz tocar muito piano em sua casa.

Maestro Arvo Pärt (Foto: Divulgação)

Trabalhos, filhos e o rock

O baterista e compositor relata que já trabalha com trilhas há mais de 15 anos, desde o hiato do Fugazi. A parada da banda o fez ter quatro filhos e, consequentemente, perder a vontade de entrar em turnês. Com isso, ele migrou para as trilhas de documentários, séries para a National Geographic, uma série sobre prisão chamada Hard Time, comerciais, vídeos políticos e acabou de terminar a trilha para o fotógrafo Glen Friedman, famoso por cobrir a cena hardcore de Washington, chamada Fuck You Heroes.

No meio disso tudo, a música com banda voltou a fazer sentido. Canty diz ter acabado de voltar de uma mini turnê com sua banda, The Messthetics, além de trabalhar em mixagem e produção para a banda Sensor Ghost, de Ian Svenonius.

The Messthetics (from left: Anthony Pirog, Joe Lally, and Brendan Canty) with James Brandon Lewis.
Photo by Pat Graham
The Messthetics (from left: Anthony Pirog, Joe Lally, and Brendan Canty) with James Brandon Lewis (Foto: Pat Graham)

Para ele, a diferença de compor para uma banda é que você trabalha para as sensações do público. Já compor trilhas é algo mais solitário, em que você precisa atingir a sua satisfação para depois se propor a satisfazer o diretor que o contratou e, assim, o público que terá contato com a obra ao assistir ao filme.

E o Fugazi?

Brendan é questionado se voltaria a tocar com a banda e sua resposta foi categórica: “Nunca diga nunca”. Felizmente, ainda somos amigos. Nos vemos e nos reunimos o tempo todo para falarmos sobre música ou para alinharmos lançamentos, como o último, In the Kill Taker Albini. Ainda estamos fazendo coisas ponderadas e respeitosas com o nosso legado”, conta Canty ao Consequence.

Fugazi (divulgação)
Fugazi (divulgação)

Ele também relata ofertas que a banda recebe para as músicas, como inserções em filmes ou comerciais, mas que, nesse ponto, todos estão de acordo sobre o que fazer em relação a isso.

O baterista afirma categoricamente a vontade de voltar a tocar com o Fugazi. “Eu adoro tocar e compor com os caras, mas estamos em momentos diferentes. Guy mora em Nova York, o Ian cuida da gravadora e de tudo que está relacionado a ela, e eu e o Joe estamos fazendo nossa parte para nos mantermos em forma”.

Brendan Canty em épocas do Fugazi
Brendan Canty em épocas do Fugazi

Para Canty, o importante é todos se manterem fiéis ao que acreditam. Ele se diz surpreso com a vontade do público de ter a banda de volta, algo em que não acreditava quando decidiram pelo hiato. Ele se diz orgulhoso por tudo que construiu e pelo interesse das pessoas em seus trabalhos atuais. Hoje, aos 60 anos, até vender suas coisas depois dos shows é algo que lhe dá bastante prazer, pois o coloca diretamente em contato com o público.

Ele se diz emocionado com relatos de fãs que contam ter visto o Fugazi aos 16 ou 18 anos e que hoje, aos 50, continuam prestigiando a banda através de seus outros trabalhos.

Brendan Canty

“Eu nunca imaginei chegar aos 60 anos. Quando se é jovem, você pensa no futuro e não consegue imaginar como seria a vida depois de uma certa idade. Ao ouvir as pessoas contando sobre momentos emocionantes ou caóticos em nossos shows, fico muito feliz. Por isso, nunca digo nunca.”

O Fugazi é uma das bandas mais influentes do rock e do rock independente. Oriunda de bandas como Minor Threat, do vocalista e guitarrista Ian MacKaye, e Rites of Spring, de também guitarrista e vocalista Guy Picciotto, a banda foi formada em 1986, com Canty na bateria e Joe Lally no baixo, e durou até 2003.

Fugazi em Joinville, Santa Catarina (Foto: Alexandre de Azevedo Lima)

O quarteto fazia um post-punk muito voltado à música experimental e ao art rock e foi uma das precursoras do post-hardcore e do post-rock. O líder, Ian MacKaye, falava que a ideia do Fugazi era ser a mistura do MC5 com o reggae.

Outro fator preponderante para o respeito à banda eram seus ideais anti-establishment e anticapitalistas. A banda foi procurada por grandes gravadoras, mas sempre preferiu ter controle da sua obra, sem qualquer interferência externa. MacKaye, que já tinha a gravadora Dischord, lançou os oito discos da banda por ela. Outro fato que chamou atenção era que seus shows tinham valores de no máximo US$ 5, para serem o mais acessível possível.

Após a banda optar por dar um tempo, todos os integrantes foram trabalhar em projetos paralelos. Brendan Canty, apesar de ter seguido com o trabalho em trilhas sonoras, montou o Garland of Hours, com Amy Domingues e Jerry Busher, lançando um disco, e mantém o The Messthetics, com Joe Lally.

Canty também fez parte da banda de Wayne Kramer, fazendo o revival do MC5, tocou em discos e turnê de Bob Mould, do Hüsker Dü e do Sugar, e produziu o DVD da carreira solo de Eddie Vedder, Water on the Road, tocando bateria na faixa All Along the Watchtower, de Bob Dylan.

Kim Thayil (Soundgarden), Brendan Canty (Fugazi), Wayne Kramer (MC5), Billy Gould (Faith No More), and Marcus Durant (Zen Guerilla)
Kim Thayil (Soundgarden), Brendan Canty (Fugazi), Wayne Kramer (MC5), Billy Gould (Faith No More), and Marcus Durant (Zen Guerilla) (Foto: Chris McKay)

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