Novo álbum traz a miscelânea de influências do quinteto de Baltimore e faz do hardcore uma mera questão de ponto de vista.
A banda de hardcore mais falada dos últimos anos, o Turnstile, de Baltimore, acaba de lançar Never Enough, seu quarto álbum em quinze anos de carreira, em um disco que tem quase tudo, mas que parece nunca ser o suficiente.
Neste novo trabalho, tudo aquilo que estava preso, entranhado, pontuado em outras gravações e jogado aos poucos no celebrado Glow On, de 2021, aparece de forma mais orgânica, sem medo, sem amarras e, de certa forma, mais ambiciosa — algo definido pelo próprio vocalista do quinteto, Brendan Yates, em entrevista ao Los Angeles Times.

Na primeira audição completa de Never Enough, você já sente onde a banda quer chegar e o que ela sempre quis fazer. O Turnstile nunca foi só hardcore. Desde o começo, eles sempre trafegaram no crossover entre o thrash metal e o funk metal de bandas como Suicidal Tendencies, mas com muita vontade de ter nascido nos anos 80.
Never Enough tem aquela new wave com cheiro retrô, tem o jeitão Journey de ser, tem muito da estética do The Police — inclusive no jeito de cantar de Yates, à la Sting em algumas faixas — tem o jeitão Rush, menos hard rock e mais novos rumos oitentistas, tem jazz e tem até hardcore.
Em resumo, Never Enough é o Turnstile emulando o que a banda sueca Refused fez maravilhosamente bem há quase 30 anos em The Shape of Punk to Come, mas escorregando um pouco na pieguice do Weezer pós-2010, fase em que virou uma banda cover de si mesma e de bandas dos anos 80. Mas calma, o disco é bom.
O álbum, gravado no estúdio Mansion, em Laurel Canyon, Los Angeles — famoso habitat ególatra dos maiores artistas do rock e da música mundial — e é o primeiro gravado como quarteto, já sem o guitarrista fundador da banda, Brady Ebert.

Yates cita ao LA Times que a escolha do lugar se deu pelo refúgio que eles estavam procurando para focar somente no álbum. Todos juntos naquele lugar, não precisavam pensar em mais nada, como por exemplo ir a um supermercado, a não ser gravar — mesmo deixando claro que o Turnstile não sentia a necessidade de ir para uma cidade como Los Angeles ou Nova York para ser o que queria ser. Em Baltimore, eles já tinham de tudo. De qualquer forma, saíram.
Os 35 anos de Yates refletem bem a temática das letras: um cara maduro, mas que questiona o tempo constantemente, vendo o que deixou de fazer e o que ainda tem para ser feito. Como na faixa Time is Happening: “O tempo está acontecendo, passando por mim, o tempo está acontecendo devastadoramente”. Ou em Look Out for Me: “Melhor tarde do que nunca, então vou passar um tempo longe. Vinte e quatro horas não são mais como antes”.
O disco Never Enough funciona muito bem como trilha sonora de um filme. Não à toa, o lançamento foi acompanhado de um álbum visual lançado no Festival de Cinema de Tribeca, em 5 de junho, dirigido pelo vocalista Brendan Yates e pelo guitarrista Pat McCrory. Segundo o release do festival, o filme mistura o som hardcore experimental característico da banda com visuais poderosos e cinematográficos que capturam a energia bruta dos shows.
A faixa de abertura, que tem o mesmo nome do álbum, já mostra a miscelânea que vem por aí: sintetizadores, um pouco de jazz, peso e muito pop. I Care é a primeira dançante do disco e poderia muito bem ser cantada pelo Sting. Mais The Police, impossível. Dreaming é aquela que o Turnstile sempre repete nos álbuns: sincopada, ritmada e com os metais emprestados de Leland Whitty, da banda canadense BadBadNotGood.
Light Design poderia muito bem tocar em qualquer trilha de anime ou nos desenhos dos estúdios Ghibli, de tão performática e moldada para campanhas. Look Out for Me tem o começo mais Rush anos 80 que já se ouviu em uma gravação e, lá por volta dos três minutos, começa a ficar contemplativa até esbarrar nos experimentalismos do Refused.
O que dizer de Seein’ Stars? A mais deliciosa do trabalho do Turnstile, e que lembra muito This is Why, do Paramore, que tem, por sinal, Hayley Williams nos backing vocals — isso, se você conseguir encontrar a voz dela na faixa. Time is Happening se assemelha ao Weezer, Sunshower começa pesada e termina com sintetizadores e flauta do jazzista britânico Shabaka Hutchings. Já Sole, Dull, Birds e Slowdive servem para mostrar que o Turnstile continua a fazer bons sons para pogar nos shows, e o álbum termina com Magic Man, um sinal do que Yates pode vir a ser em uma carreira solo.
Produzido pelo próprio Yates, o disco vem recebendo denominações de pós-hardcore, dream pop, shoegaze, new wave e vários estilos. Ao meu ver, é um álbum que reflete demais a geração dos novos ouvintes, que abraçou o termo “eclético” sem sentir vergonha e gosta de tudo ao mesmo tempo agora — e que também denota a ambição da banda de querer ser gigante e dar o próximo passo. Qual seria? A ver.
Ficha técnica
Turnstile
Brendan Yates – lead vocals, keyboards, synthesizer, percussion, production
Franz Lyons – bass, backing vocals, percussion
Meg Mills – rhythm guitar, backing vocals
Pat McCrory – lead guitar, backing vocals
Daniel Fang – drums, percussion
Additional personnel
Pessoas que fizeram parte de Never Enough
Dev Hynes – backing vocals on “Seein’ Stars”, cello on “Never Enough” and “Look Out for Me”
Leland Whitty – saxophone on “Dreaming”
Kae Murphy – trumpet on “Dreaming”
Shabaka Hutchings – flute on “Sunshower”
Maestro Harrell – spoken words on “Look Out for Me”
Hayley Williams – backing vocals on “Seein’ Stars”
Faye Webster – backing vocals on “Time Is Happening”
Liam Benzvi – backing vocals on “Time Is Happening”
Will Yip – engineering, additional production
A.G. Cook – additional production on “Dull”
Jason Lader – engineering
Adam Hawkins – mixing
Justin Bartlett – assistant engineering
Josh Fernandez – assistant engineering
Jay Preston – assistant engineering
Chris Gehringer – mastering