Os Ramones lançaram, no dia 1º de outubro de 1984, o disco Too Tough to Die, o oitavo da carreira em 10 anos de estrada. Este não foi um disco qualquer. Ele marca uma volta do quarteto de Nova York ao punk, uma aproximação com o hardcore e sons mais pesados e ainda trazia na bagagem a estreia de um novo baterista, chamado Richard Reinhardt, mais conhecido como Richie Ramone.

A troca de posição nas baquetas ocorreu após a saída de Marky Ramone, que estava enfrentando problemas com álcool. Richie entrou nos Ramones ainda em 1983, mas foi em 1984 que estreou em disco com a banda. Estou falando do Richie porque os Ramones vão fazer um show no dia 30 de agosto em homenagem aos 50 anos do primeiro disco da banda e ele não foi convidado.
O disco Too Tough to Die marcou uma volta às origens da banda. Os Ramones vinham de uma sequência mais bubble gum, com produções voltadas a um som mais comercial e, quem sabe, a um sucesso mercadológico, algo que a banda nunca conseguiu alcançar.
Depois de quatro discos que moldaram toda uma nova estética sonora e visual no mundo da música, o quarteto de Nova York lançou álbuns com produtores mais experientes e reconhecidos no mainstream. Foram os discos End of the Century (1980), produzido por Phil Spector, Pleasant Dreams (1981), produzido por Graham Gouldman, do 10cc, e Subterranean Jungle (1983), feito por Ritchie Cordell.
Hardcore e a produção de Tommy Ramone
O hardcore estava no auge nos EUA, com bandas como Black Flag, Bad Brains e Minor Threat, e talvez essa tenha sido a chama para os Ramones voltarem às raízes. Johnny Ramone declarou em sua biografia que eles estavam cansados de ter produtores exigindo várias coisas da banda e sabiam o quão bons eram no básico.
Para a produção, chamaram Tommy Ramone, o primeiro baterista e membro fundador dos Ramones, que já havia coproduzido os discos Leave Home (1977), Rocket to Russia (1977) e Road to Ruin (1978). Na coprodução, Ed Stasium também fez parte deste trabalho e de tantos outros discos do quarteto nova-iorquino.

O disco foi gravado nos estúdios Media Sound, de New York, em um esquema semi ao vivo. Foram 13 músicas, quase todas compostas por Dee Dee Ramone e Johnny Ramone. Dee Dee, que sempre foi um dos principais letristas da banda, usou temas sociais e uma certa desilusão com os rumos que os EUA vinham tomando, com uma alta do conservadorismo e uma certa reflexão sobre o fim do mundo.
Temas como meio ambiente, preconceitos, desigualdades sociais e resiliência por fazer parte de uma banda que nunca chegou lá financeiramente são constantes no disco. Joey, que já enfrentava problemas de saúde naquela época, participou de três composições, como “Chasing the Night”, “Daytime Dilemma (Dangers of Love)” e “No Go”.
E o Richie? Apesar de novo na banda, ele participou com uma composição chamada “Humankind”, um questionamento à humanidade e seus dilemas, e também da música “Smash You”, que só foi sair na versão estendida décadas depois. Richie sempre foi um baterista preciso e com muitos recursos, agressivo na hora de tocar, mas pronto para jogar para o time naquele momento de estreia na banda, além de fazer backing vocals quando preciso.
Participações especiais no álbum
Mesmo o disco tendo uma veia mais pesada, com riffs e influências de heavy metal, os Ramones também incorporaram, em algumas músicas, aspectos sonoros que permeavam a new wave dos anos 80, com uso de sintetizadores e teclados, muito por causa das participações especiais e dos músicos de estúdio que trabalharam nas faixas.
Um dos componentes que fizeram parte do disco foi Walter Lure, guitarrista, amigo da banda e músico de estúdio. Lure fez parte de uma banda chamada Heartbreakers, não a do Tom Petty, mas um grupo que acompanhou Johnny Thunders e Jerry Nolan, dos New York Dolls, Richard Hell, entre outros. Ele aparece como guitarrista, sem citações às faixas que gravou.
A música “Chasing in the Night”, que conta com uma abertura de sintetizador com a cara dos anos 80, foi feita por Jerry Harrison, integrante dos Talking Heads e dos Modern Lovers.




A faixa “Howling at the Moon (Sha-La-La)” possui dois convidados ilustres. Um foi Benmont Tench, famoso músico de estúdio, que deve aparecer em inúmeras gravações dos mais diferentes artistas, como Bob Dylan, The Who e Rolling Stones, mas que, naquele momento, fazia parte dos Heartbreakers, essa sim, banda de Tom Petty. Tench faz o teclado de “Sha-La-La”. A guitarra desta música foi feita por David A. Stewart, fundador dos Eurythmics junto a Annie Lennox. Stewart era indicado para produzir todo o álbum, mas a banda barrou.

Outros músicos que não foram creditados, mas também tocam guitarras no disco, foram Ed Stasium, que dividiu a produção com Tommy, e Daniel Rey, que compôs a faixa “Daytime Dilemma” junto a Joey Ramone. Rey viria a ser peça fundamental em vários discos e produções da banda ao longo dos anos.
Das 13 músicas, duas contam com o vocal de Dee Dee Ramone, que até então não havia ocupado o posto de vocal principal, somente nos backing vocals. Dee Dee canta “Warthog” e “Endless Vacation” e, na versão estendida, faz o vocal principal de “Danger Zone”, tão boa quanto a do Joey, além de “Too Tough to Die”, “Planet Earth”, entre outras. O baixista também foi responsável pela primeira música instrumental da banda, “Durango 95”, ao lado de Johnny, que ficou responsável pela abertura dos shows dos Ramones e tornou-se um clássico. Dee Dee assina nove composições do disco.
Duro de mais para morrer
A versão estendida de Too Tough to Die é tão boa quanto o disco original. Além de várias faixas demo das músicas, os Ramones crus, ainda há músicas tão boas ou melhores que deveriam fazer parte da discografia da banda. A música “Out of Here” tem um riff matador e um vocal tão marcante do Joey, que mostra o quanto ele era bom, um dos melhores da sua geração. Esta faixa lembra, em alguns momentos, a música “What’d Ya Do?”, presente em Subterranean Jungle.
Outra versão muito boa e que mostra a versatilidade do Joey é a de “Mama’s Boy“, no melhor estilo dark de cantar. Os Ramones sempre foram ótimos em fazer versões e, para esse disco, gravaram “Street Fighting Man“, uma das melhores músicas dos Rolling Stones, que, na versão dos Ramones, ficou tão boa quanto.
O nome do disco foi inspirado na recuperação de Johnny após ter sido agredido em uma briga de rua que quase o levou à morte. Too Tough to Die significa “Durão demais para morrer”, uma frase que permeia a história da banda e dura até hoje. Já a capa foi inspirada eu uma cena do filme Laranja Mecânica e contou com uma falha causada por um defeito na câmera do fotógrafo George DuBose, fazendo sair apenas a silhueta dos integrantes em um tom azulado. A foto foi feita em um túnel do Central Park.



Para variar, o disco não foi bem comercialmente. Atingiu o número 171 da Billboard 200 e figurou na posição 63 da parada britânica, mas muitas das músicas do álbum fizeram parte constante dos shows dos Ramones e trouxeram a banda de volta ao punk e ao hardcore, o que fez do quarteto uma das maiores e mais influentes bandas do mundo.
E o Richie? Ele fez parte disso e continuaremos a contar um pouco mais dos próximos discos nos quais ele fez parte, Animal Boy (1986) e Halfway to Sanity (1987).