Quando os Strokes apareceram, foram rapidamente ovacionados como a nova cara do rock. Isso foi feito por críticos, aqueles já nostálgicos e cults, amantes do Velvet Underground, o que, consequentemente, fez criar um hype em torno dos nova-iorquinos, que perdura até hoje, como se a banda fosse digna de ser comparada aos conterrâneos, que, na década de 60, estavam à frente do seu tempo. O disco Is This It é um bom álbum, mas ali já dava para ver que a banda seria um pastiche de várias épocas.
Nos três primeiros discos, a banda emula um proto-punk, bebendo e chupando da fonte de Lou Reed, do Velvet Underground, dos Modern Lovers, do New York Dolls e afins. Foi, sem sombra de dúvida, a melhor fase dos Strokes.

Depois disso, a banda, e principalmente o playboy Julian Casablancas, entrou numa de ser anos 80. Tanto que, em seu projeto paralelo, o The Voidz, ele usou e abusou dessa estética. Isso transbordou para os Strokes e, até hoje, a banda não conseguiu se livrar dessa amarra.
Lançado nesta última semana, Reality Awaits é sofrível. O sétimo disco dos Strokes, produzido pelo conceituado Rick Rubin, me fez parecer que estava ouvindo uma trilha sonora de videogame. Só para frisar, videogame Atari, Odyssey. Não que eu não ame Atari, mas isso não foi o suficiente para gostar do disco.
Gravado na Costa Rica desde 2022, este é o segundo disco produzido por Rubin que, assim como a banda, está ficando especialista em trabalhos medíocres.
Faixas e lampejos
O disco até tem quatro músicas que passam de ano e ficam acima da média. São elas: “Psycho Shit”, “Dine N´ Dash”, “Going To Babble On” e “The Fruits of Conquest”, esta a melhor do álbum.
Em minhas anotações sobre essas faixas, consigo concatenar o que seria esse disco: vocal irritante e autotunado de Casablancas, algo que não faz sentido, já que, quando ele quer, canta bem, com aquele seu jeito blasé marcante. Já a banda, ela continua sendo competente instrumentalmente, dissonante quando quer ser, com boas melodias, quando quer. Mas os elogios param por aqui.
“A Lonely in the Future” tem cinco segundos iniciais bons, mas minha euforia com a faixa acabou rapidamente. Quando falei que a banda parece fazer trilha sonora para videogame, esse é o exemplo ideal. A qualquer momento, pensei que escutaria o barulho das moedas do Mario Bros.
Eles seguiram com “Falling Out Of Love”, uma balada constrangedora, “Going Shopping”, a faixa que mostra que a banda está sempre indo, só não se sabe para onde, a sofrível “Liar’s Remorse”, finalizando com a insuportável “Tyrants of the Mellow Moon”.
Depois de ouvir o disco e escrever esta crítica, fui ler algumas análises para ver se estava pegando pesado. Não. Eu estou certo. Só que estou mais negativo, mais desanimado ou mais realista do que os demais amigos jornalistas, que ainda esperam o Strokes hipotético, assim como boa parte da torcida brasileira esperava pelo Neymar na Copa. Deixa eu avisar, galera: acabou. Daqui para a frente, é só pior.
Em dezembro, a banda estará em terras brasileiras como headliner do Primavera Sound Festival e, quem sabe, ao vivo, poderá mostrar se as músicas de Reality Awaits funcionam melhor. Já se sabe que o grupo também deixa a desejar em muitas apresentações ao vivo e mostra um bom futebol, quer dizer, toca bem, quando quer. Veremos, ou não.