A maior banda de Heavy Metal dos anos 80 e 90 resolveu dar um passo gigantesco no intuito de furar a bolha dos metaleiros cabeludos. O primeiro movimento foi em 1991, com um disco pesado, mas com mais groove, arranjos mais melódicos e vídeos na MTV. Esse era o Black Album. Cinco anos depois, mais precisamente em 4 de junho de 1996, o Metallica apareceu de cabelos cortados, roupas clubbers e um som pesado, mas menos thrash, mais hard e mais pop. Esse era o Load, que completou 30 anos em 2026.

Naquele momento, existiam duas bandas famosas que se formaram e se consolidaram nos anos 80. Cada qual no seu estilo, lançou uma trilogia de discos nos anos 90 com o ímpeto de se tornar a maior do mundo. Uma foi o U2, com sua sequência de álbuns que misturavam dance music e música eletrônica com rock e pós-punk, nos discos Achtung Baby, Zooropa e Pop. A outra veio de um gueto mais radical, mas tão famosa quanto a banda irlandesa, e foi o Metallica. A banda de São Francisco, Califórnia, foi ao alicerce de um novo estilo dentro de outro adorado por fãs no mundo todo. O thrash metal nasceu com o Metallica e foi popularizado mundo afora, reverberando em todos os continentes.
Mas o passo maior, de olho na vontade de “furar a bolha”, termo tão falado atualmente, foi dado pelo Metallica em 1991, com o Black Album. Naquela ocasião, a banda virou a maior banda de Heavy Metal do mundo, foi para as rádios, estourou na MTV e ganhou a pecha de traidora do metal tradicional. Um passo ainda mais ousado foi dado com o Load.
Load nasceu da vontade clara de Lars Ulrich, o baterista e o líder ao lado de James Hetfield, de ser maior que o U2. O músico nunca escondeu a admiração pelo quarteto irlandês e via na banda uma motivação para mudar e ousar musicalmente a fim de atingir outros públicos. O Load é, de fato, um disco em que o grupo abraçou outros estilos, como o grunge metal do Alice in Chains, além da música country e do southern rock americano, embalados e entregues em uma versão hard rock.
Concebido para ser um álbum duplo, o grupo desistiu da ideia depois de algumas reuniões e pressões da gravadora e dividiu o material em dois lançamentos, dando origem posteriormente ao ReLoad. Para a gravação, chamaram novamente Bob Rock, o responsável pelo som do Black Album, e conceberam o Load com 14 músicas em 78 minutos, tempo máximo que um CD suporta.

A banda optou não só por explorar outros estilos musicais, mas também novas formas de tocar. Todas as faixas foram gravadas em mi bemol, dando mais possibilidades ao modo de cantar de Hetfield. Kirk Hammett passou a explorar mais as bases em vez dos solos, o baixo de Jason Newsted teve mais destaque que o habitual e Lars pôde desacelerar a bateria em muitas músicas. Já na parte das letras, muitos conflitos internos de Hetfield, perdas e a luta contra o álcool, algo recorrente em boa parte de sua vida, fizeram parte das temáticas.
Apesar de toda a celeuma entre os fãs e das críticas, o disco foi muito bem comercialmente. Estreou em primeiro lugar na Billboard 200, permanecendo quatro semanas consecutivas na liderança. O topo foi alcançado também em vários países, entre eles o Reino Unido. No Brasil, ganhou discos de ouro, com mais de 100 mil cópias vendidas e, no mundo, estima-se que mais de 13 milhões de unidades tenham sido adquiridas, tornando-se um dos trabalhos mais bem-sucedidos da carreira da banda.
Quatro singles foram muito bem e viraram hits radiofônicos. Until It Sleeps, King Nothing, Hero of the Day e Mama Said foram muito veiculadas pela MTV. Ain’t My Bitch é a que destoa dessas e entrega um Metallica ainda calcado no thrash.
A crítica recebeu o álbum de forma positiva. Com média de quatro estrelas nas mais importantes publicações, como Los Angeles Times, Q e Rolling Stone, além de nota 7 na NME, foi praticamente unânime entre os críticos que a audácia de experimentar e navegar por outros caminhos fez bem ao quarteto.
A capa também foi outro ponto de polêmica. A imagem de uma geleia psicodélica era nada mais, nada menos que o sêmen de um boi misturado com o sêmen do autor da obra, Andrés Serrano. Parte da banda não gostou, parte do público também não, mas, 30 anos depois, a imagem virou marca na mente de muita gente quando se pensa em Load.
Uma coisa é certa: após três décadas, pode-se dizer que o Metallica não cometeu erros com Load, e o disco envelheceu muito bem. Por um tempo, afastou a banda da pecha de metaleira e a consolidou, de uma vez por todas, como uma das maiores da história.