Capa do disco, feita pelo artista Koti Chucrobillyman

Gustavo Kaly lança Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas

Tempo de leitura: 5 min

Trabalho em parceria com Wander Wildner e Pata de Elefante reforça o lado punk-cancioneiro e a poesia beat do músico catarinense.

Em 2025, o músico Gustavo Kaly lançou um disco que, à primeira ouvida, remetia a mais um trabalho de uma banda de rock gaúcho característico, carregado de ironia, estúpidamente bem escrito e com forte cheiro beat. Tudo isso seria normal se não fosse pelo seu autor ser catarinense. Mas calma aí, ele tem um colaborador importante, um feat prolongado, e ele se chama Wander Wildner. Então, as referências estão explicadas.

O álbum, Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas, carrega aquela pegada de música cancioneira, feita por quem usa sua voz e seu violão, tocado com poucos acordes, para contar histórias, causos, quase sempre de um perdedor, e que, de certa forma, gostamos de ouvir porque nos enxergamos em muitos momentos da vida.

Parceria entre Wildner e Kaly vem de longa data – Foto: Divulgação

Wander Wildner é a escolha perfeita de parceria para Gustavo Kaly, pois ele personifica tudo que canta, e isso é um ponto importante para quem quer seguir na mesma caminhada do gaúcho. Mas eu preciso dar o meu ponto de vista aqui para Gustavo Kaly, pois ele assina boa parte das músicas, além da produção ao lado de Gabriel Guedes, músico da importante banda de rock instrumental gaúcha Pata de Elefante, na qual também são responsáveis por parte do arranjo sonoro do trabalho.

Kaly faz parte da cena independente de Santa Catarina, fazendo rock desde o século passado, mais precisamente nos anos 90, e vem, desde meados dos anos 2000, na primeira metade da década, talvez a última em que o rock ainda tinha uma relevância comercial, lançando discos em projetos como Kaly e os Hóspedes do Chelsea e os Últimos Românticos da Rua Augusta, este enquanto morava em São Paulo e que contou, em alguns momentos, com o Wander Wildner.

Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas é um disco que celebra a parceria entre o mestre e o discípulo, concatenando ideias, loucuras, boas histórias, acordes punk e uma mistura de influências sonoras que vão desde o tradicional rock sulista, e sim, existe um rock sulista, até o punk rock, o folk, um pouquinho de modernidade com bases eletrônicas e, quem sabe, samba.

A simplicidade das composições melódicas de Gustavo Kaly está presente em muitas faixas, mas com o tempero charmoso e preciso do Pata de Elefante. Mistura, no mesmo caldeirão, o seu bom vocal, ainda resguardado pelo tempo, e o timbre característico e bem temperado pela vida de Wildner, e pronto, está feito um disco que não vai sair da sua cabeça por um bom tempo!

Entre as 10 músicas do álbum, destaco as faixas Antes do Café da Manhã, que tem uma pegada western e trilhas de filmes do Tarantino, e uma letra que, ao meu ver, retrata um romance com um ponto de vista blasé de uma parceira casual.

Depois que a Guerra Terminou, é um duo vocal com Wildner. Começa acústica e vai crescendo junto com a história sobre cachorros que se perdem e não sabem voltar para casa, ou seja, nós homens cafajestes.

Brasas Quentes, outra à la western, possui uma história lírica muito bem arquitetada, talvez autobiográfica? A moderna O Segundo Lado do Disco, com batida eletrônica e uma guitarra marcante durante toda a faixa, têm uma letra que retrata os dias atuais, com um misto de um pouco de saco cheio de tudo.

Deixa Isso pra Lá mostra que o duo com Wildner dá muito certo e é uma releitura da poesia de David Tottersal, do grupo inglês The Wave Pictures. Tem também a “sambinha” Tristeza à Moda Antiga, que fala sobre relacionamentos, temperada com um fuzz para lembrar que o rock é quem manda, e a melhor música do trabalho, Sempre que eu posso eu Fujo do Inverno, que já saiu em um disco solo de Wander Wildner e resume tudo o que o disco quer passar ao ouvinte.

Kaly, que já demonstrou em outros trabalhos gostar de fazer analogias com cachorros, um animal carente, sempre aberto ao amor e resistente a decepções, mostra neste álbum, ao lado de Wildner, que as feridas, lambidas ou não, junto das mágoas, rancores, alegrias, percalços, raiva e percepções do novo mundo rendem boas histórias e canções.

Disponível em streaming, o trabalho ganhou uma versão física em vinil pela Laja Records, que esgotou rapidamente. Além das boas canções, a parte gráfica chama a atenção e foi feita pelo artista Koti Chucrobillyman, inspirado na letra da faixa-título, cantada na abertura do disco por Wander Wildner.

Kaly, Wildner e Gabriel Guedes estão em turnê de divulgação, com apresentações que começaram pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Curitiba, hoje, 17, depois Campo Largo e termina com três shows em São Paulo.

Avaliação: 3.5 de 5.

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