Waterworks, primeiro trabalho solo de Filipe Miu

Filipe Miu lança disco solo que poderia ser um EP

Tempo de leitura: 4 min

Artista que vem da cena indie paulistana e compõe trilhas para a Globo se arrisca em um trabalho para chamar de seu com o disco Waterworks

No começo do ano, recebi o trabalho do artista paulista Filipe Miu, intitulado Waterworks, lançado no final de 2025, para ouvir. Um disco curto, com oito músicas, que poderia soar como um bom EP, um disco que contém mais faixas que um single e menos do que um LP.

Primeiro, vale frisar que não tenho nada contra LPs. Sou da época em que artistas compunham um disco cheio, completo, e, nesse aspecto, um ponto positivo para Filipe Miu. Nada contra também quem lança um disco curto, com 30 minutos ou menos, sou fã dos Ramones, não posso achar ruim. Também não me incomoda ter de 7 a 8 faixas. Black Sabbath com Ozzy só lançou clássicos neste formato.

O que me pegou no trabalho de Miu é que um disco com quatro canções, as primeiras, da faixa 1 a 4, já valeriam um bom trabalho, mas dobrar de tamanho senti desnecessário. Eu ouvi muito esse disco antes de escrever sobre. Sou daqueles que precisa ouvir pelo menos três vezes para ter uma opinião, e esse rodou mais de 10 vezes no meu streaming. Confesso que, da quinta faixa em diante, já não me chamou mais atenção em todas as vezes que ouvi.

O trabalho de Miu requer uma audição mais criteriosa. Não é para ouvidos fáceis e desatentos. O produtor e compositor navega no experimentalismo, na ambient music e na eletrônica minimalista e atmosférica, feita geralmente para completar passagens que podem surgir na sua mente ou fisicamente, pois o artista trabalha com trilhas sonoras da Globo, como as novelas Vale Tudo e A Dona do Pedaço, e séries como Amor de Mãe, Justiça e Verdades Secretas

Filipe Miu – Foto: Divulgação

Se você ouvir algumas músicas compostas por ele nessas obras, vai perceber que o disco solo é uma continuação do que ele fez ali, mas com uma particularidade que vou deixar para o fim do texto.

Last Rites at Sea, a primeira música de Waterworks, é a melhor do álbum. Começa tensa e empolga ainda mais com o transcorrer da canção. Break The Surface possui passagens que simulam orquestras, barulhos instigantes, beats que fariam Thom Yorke se deliciar com sua dança estranha. Na sequência, Exhale The Grave é uma das mais eletrônicas do disco, misturando elementos de sopro com vocais inaudíveis de fundo, um dos pontos altos do trabalho, e que poderia encerrar com Alvorada, a mais longa, com um coro inicial e uma das mais atmosféricas.

As demais, Acta Non Verba, Duandon, Algorithmic Bondage e In Memory of Sami Bordokan, já soam como complementos para preencher o disco. Não são ruins, mas são dispensáveis.

A capa é uma intervenção do artista Manoel Brasil em uma pintura do século XIX sobre o mito de Hylas. A história original retrata uma das narrativas mais conhecidas da mitologia grega sobre beleza, perda e o desejo das ninfas. A arte do álbum retrata o momento antes de as ninfas capturarem e matarem Hylas, inserindo objetos tecnológicos, como celulares, nas mãos delas.

Filipe Miu vem da cena paulista do indie rock dos anos 2000, tendo feito parte do coletivo Fragile Arm, que saiu pela Sinewave, um selo virtual importante da cena alternativa, e, posteriormente, tocou no Jennifer LoFi, banda interessante que fazia um post-rock muito bem feito, com certa reverberação na cena, mas que ficou pelo caminho.

O que esses trabalhos com bandas, mais as trilhas, têm de particular na obra de Miu? Há parcerias, pessoas que puxam e seguram as extravagâncias de algo que possa estar demais, e as músicas de Miu soam mais interessantes quando acompanhadas de outras cabeças.

Ok, é um trabalho solo, e pelo release enviado, tem uma carga de sentimentos impressos nas composições, das quais não fui atrás para saber, mas o que fica claro, é que uma segunda opinião, seria outro ponto positivo à ser ganho. Waterworks no final, mostra o talento para experimentações sonoras de Filipe Miu, mas peca no excesso de faixas. Isso porque o álbum só possui 8 faixas em 26 minutos.

Avaliação: 2.5 de 5.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Scroll to top